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Pecadores: o terror sobrenatural que vem dominando a temporada de premiações

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 23 de fev.
  • 3 min de leitura

Pecadores fez história, não só por se tornar o filme mais indicado da história do Oscar, acumulando 16 indicações, mas também por estabelecer uma nova tendência em relação ao reconhecimento dos filmes de terror pelas grandes premiações do cinema. Antes esnobados, os filmes do gênero passaram a conquistar espaço e destaque nas premiações nos últimos anos. Em 2025, os longas A Substância, Nosferatu e Alien: Romulus foram indicados a diversas categorias do Oscar e em 2026, além do recordista Pecadores, os filmes Frankenstein, A Hora do Mal, e A Meia-Irmã Feia também acumulam indicações à premiação.


Dirigido por Ryan Coogler, Pecadores conta a história de Fumaça e Fuligem, irmãos gêmeos que retornam à sua cidade natal em busca de um recomeço, mas que acabam enfrentando um mal ancestral e medos sobrenaturais durante a sua estadia. O longa entrega tudo que se espera em um bom filme de terror: sangue, tensão, suspense, insanidade e vilões aterrorizantes, mas consegue se destacar justamente por conseguir ser suficientemente intrigante para entreter o público geral também.


Além de ter uma história que já é envolvente por si só, o roteiro do filme passa a ser ainda mais interessante se o interpretarmos a partir de um ponto de vista sociologicamente ativo. A necessidade urgente dos personagens negros em se unirem é justificável pelo fato de eles, claramente, possuírem uma luta em comum em um contexto histórico e social completamente segregacionista. A escolha do Mal da narrativa de atacar justamente os subjugados, que de alguma forma estão no caminho para alcançar ascensão social, não é aleatória. Cada acontecimento do filme pode ser refletido na busca e luta por isonomia social da contemporaneidade.


 A decisão de representar essas pautas através da ficção e do sobrenatural é sagaz. O “surrealismo negro” é trabalhado de maneira semelhante ao retratado nas obras de Jordan Peele e é responsável por adicionar uma camada social crucial para a construção da narrativa. 


Aqui, o terror é construído pela atmosfera. A direção de arte faz um trabalho incrível de ambientação ao inserir diversas simbologias visuais que definem a estética de cada enquadramento.. As cores (ou a ausência delas) são cruciais: os tons quentes e frios são contrastados ao longo de todo o filme e a escuridão é utilizada como elemento narrativo para operar um clima de confusão e dúvida, acompanhando o desgaste psicológico dos personagens com o tempo.


Focar nos personagens e em seus dilemas no primeiro terço do filme é uma escolha extremamente assertiva, já que ela possibilita uma conexão especial com cada um deles e adiciona ainda mais profundidade à trama. 


A indicação do filme ao Oscar de Melhor Direção de Elenco não é à toa. Michael B. Jordan é duplamente brilhante ao dar vida aos gêmeos Fumaça e Fuligem e entrega uma das melhores performances de toda a sua carreira. A indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante Wunmi Mosaku traz uma carga dramática absurda e fundamental para a trama, com uma sentimentalidade que contrasta muito bem com o trabalho dos seus parceiros de elenco. Delroy Lindo e Miles Caton também são destaques e complementam com maestria o núcleo principal, com o espaço necessário para fazerem diferença no enredo.


A música é um elemento fundamental para a narrativa do longa. Além de representar a grande aspiração do personagem Sammie Moore, toda a trilha e efeitos sonoros são responsáveis por criar uma ambientação completamente imersiva e envolvente para o filme, sendo capaz de definir o tom ideal para cada uma das cenas. É arriscado, mas ao mesmo tempo seguro dizer que cada canção acaba atuando como protagonista em Pecadores. Isso justifica bem a indicação da potente “I Lied To You” (que é um espetáculo à parte) ao Oscar de Melhor Canção Original, bem como a indicação do filme às categorias de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Som.


Com um roteiro muito bem pensado, atuações de tirar o fôlego e uma cinematografia espetacular, Pecadores é um filme sólido, surpreendente e que já conseguiu fazer história além das 16 indicações ao Oscar. Ao fugir do padrão, ele prova que um filme de horror pode apresentar camadas, ser politicamente consciente e ainda assim bem-sucedido.


Escrito por: Filipe Seabra

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