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Hamnet: A catarse que envolve o luto familiar

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 16 de fev.
  • 5 min de leitura

Na famosa tragédia Hamlet, escrita por William Shakespeare no início do século XVII, um príncipe da Dinamarca encontra o fantasma do pai assassinado, que lhe revela a traição do tio, agora coroado e casado com sua mãe. Antes de desaparecer, o espectro faz um pedido que atravessa toda a peça e implora ao filho que não o deixe desaparecer: “lembra-te de mim”. A partir daí, o príncipe passa a carregar a memória do pai como um fardo e a tragédia se concentra em torno do medo do esquecimento. 


Se, em Hamlet, o fantasma do pai pede ao filho que o preserve na memória, em Hamnet, o pai parece criar uma obra para garantir que o fantasma do filho seja lembrado, visto que, na obra de Chloé Zhao, o “lembra-te de mim” parece ganhar outra direção. 


Baseado no romance de Maggie O’Farrell, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet acompanha a família de William Shakespeare (Paul Mescal) com atenção especial à esposa, Agnes (Jessie Buckley). Após a morte do filho, o núcleo familiar se fragmenta sob o peso de um luto que se infiltra nas vidas dos personagens e Shakespeare, distante como marido e pai, encontra na escrita um modo de reorganizar a própria dor. 


Chloé Zhao, ao assumir a direção do longa, consegue definir o tom da trama através dos aspectos técnicos, centralizando os protagonistas no enquadramento da maioria das cenas e reforçando a conexão com a natureza por meio dos planos abertos e visuais naturais. A fotografia é responsável por transmitir cada nuance emocional e cada atmosfera da cena, seja ela mais bucólica, sentimental ou até extremamente melancólica.


O enfoque majoritário fornecido aos personagens ao longo de toda a narrativa acaba dando um ritmo lento ao enredo, mas que parece ser necessário para destacar a profundidade dos protagonistas, enaltecendo suas emoções e relações interpessoais.


O que mais chama a atenção em Hamnet é, sem dúvidas, Jessie Buckley dando vida a Agnes. Antes da tragédia, ela é uma mulher que existe em sintonia com a natureza e com os ciclos da vida que a colocam num lugar quase intuitivo demais para o mundo doméstico que, depois, a aprisiona. 


A sequência do adoecimento de Judith e da morte de Hamnet é, de longe, o ponto mais alto da narrativa. O filme constrói a cena como um gesto de troca: a irmã primeiro adoece, e o menino, numa façanha infantil e amorosa, tenta absorver a doença e enganar a morte para deslocar a dor de um corpo para outro. Há algo de sacrificial nesse ato, não no sentido religioso explícito, mas na lógica de duas crianças, gêmeas, que se entendem como extensão uma da outra. 


Quando Judith sobrevive e ele não, o filme deixa no ar a sensação de que houve uma substituição, carregada de um sentimento que ninguém consegue explicar, apenas sentir. Mas, para Agnes, isso se transforma numa ferida ainda mais complexa. Como mãe e como curandeira, que conhece as plantas e os mistérios do corpo, ela é aquela que deveria cuidar. 


Há uma dimensão nesse luto que o filme parece reconhecer como profundamente feminina, difícil de ser totalmente traduzida em palavras e Buckley parece se apoiar justamente nisso. Em entrevistas, a atriz contou que muitos dos gritos da personagem surgiram por instinto, fora do roteiro, como se precisasse “arrebentar as cordas vocais” para alcançar uma dor que ela descreve como ancestral. Em cena, Agnes não vive o sofrimento pela linguagem ou pela arte, mas pelo corpo, pelo esgotamento físico de quem carregou e perdeu um filho.


A dinâmica entre os dois, enquanto casal, também se constrói a partir dessa assimetria. O motivo do desentendimento contínuo deles está na colisão de dois mundos opostos, na distância geográfica, nas diferenças ao lidar com a tragédia familiar e na ausência de um na vida do outro. Embora o Shakespeare de Paul Mescal também esteja em luto, o filme deixa claro que os dois atravessam experiências diferentes. Para ele, a escrita se torna ainda mais um lugar de conforto, enquanto ela permanece no terreno mais bruto da ausência com uma dor cotidiana, doméstica, solitária. A dor de quem ficou, de quem viveu a gestação, o parto, o cuidado e, depois, a falta. 


O filme não transforma isso em conflito explícito o tempo todo, mas deixa essa sensação de desencontro bem sublime: eles amam o mesmo filho, mas não vivem o mesmo luto — e não porque um ame mais que o outro, mas porque as condições de cada um diante da perda são diferentes.


É justamente dessa incompreensão constante entre os protagonistas que nasce uma das maiores tragédias de todos os tempos, que, paradoxalmente, acaba sendo a responsável pelo reconhecimento da dor compartilhada entre eles.


É interessante analisar como até nisso existe algo estrutural e perceber como Hamnet não romantiza esse descompasso. Ao invés de opor arte e maternidade de forma simplista, o filme observa como até o luto é atravessado por gênero e por papéis sociais. Quando Shakespeare viaja e transforma o menino em peça, ela continua ali, na casa onde viu ele crescer, vislumbrando a figura do filho morto que brincava de espadas no fundo do quintal e se imaginava como ator. Nesse sentido, a dor de Agnes parece mais forte, não necessariamente “maior”, mas mais difícil de deslocar, e Jessie Buckley sustenta a dimensão da personagem com uma atuação pesada, e às vezes até torturante de assistir. 


O figurino acompanha esse percurso. Antes da morte do filho, Agnes surge em tons vermelhos, vibrantes, conectada à vitalidade, ao amor e ao desejo. Após a morte de Hamnet, as cores se tornam terrosas, opacas, como se o fervor da vida tivesse sido drenado do tecido e do corpo. O vermelho retorna apenas no ato final.


De maneira geral, todo o elenco tem muita sintonia e cumpre o papel de transmitir a sentimentalidade densa exigida pela história por meio das atuações. Paul Mescal, apesar de não ter conquistado uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho, entrega uma performance digna e um ponto de vista pouco antes explorado acerca de William Shakespeare, que, de maneira intrigante, só é nomeado no fim da história. A dinâmica entre Agnes e Will é um dos pontos cruciais da história e consegue ser ainda mais potencializada pela performance dos atores.


Outro destaque positivo é o ator mirim Jacob Jupe, que, ao dar vida a Hamnet Shakespeare, completa com chave de ouro a interpretação da dramaticidade do núcleo familiar, que consegue emocionar qualquer espectador e deixa claro o motivo por trás da indicação do filme ao Oscar na categoria de “Melhor Direção de Elenco”.


Uma camada sutil do surreal é trabalhada de maneira poética em Hamnet. Com início nas características da protagonista, que é apresentada como um espírito da natureza com dons sensitivos, e com continuidade nas analogias feitas ao longo da trama, que adicionam dramaticidade ao relacionar os acontecimentos do filme com explicações simbólicas destinadas à tentativa humana de entender o sofrimento. Desse modo, o surreal nasce com menos fantasia, mas com intenção de expandir a carga emocional de cada personagem e de metaforizar episódios cruciais para narrativa.


A cena final, além de ser uma homenagem à história e ao legado do teatro, é responsável por transformar em arte todo o sentimento construído ao longo do filme. O luto deixa de ser apenas ausência e passa a ser presença simbólica. A dor de cada um é finalmente externalizada e compreendida. Aquilo que parecia ser incomunicável acaba ganhando forma diante do público. A esperança de conseguir sobreviver à perda floresce. É o momento em que tudo parece fazer sentido na cabeça dos personagens.


Ao reimaginar o segundo plano de uma das histórias shakespearianas a partir de uma perspectiva feminina, Hamnet consegue utilizar da sensibilidade para retratar o luto familiar de maneira singular, com olhar íntimo e muito pessoal. É uma obra contemplativa que encontra beleza na fragilidade e na profundidade do interior pessoal de cada um.


Escrito por: Luana Araújo e Filipe Seabra

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