Valor sentimental: A arquitetura do trauma geracional
- Revista Epifania
- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
Sempre fui uma pessoa muito relutante com mudanças, principalmente em lugares importantes para mim. Por exemplo, não gosto da ideia de vender a casa da minha avó só porque, agora, ela não está mais lá. Para mim, casas são extensões de uma família, por isso as chamamos de lar. Elas são coletâneas de concreto de todos os momentos, bons e ruins, passados de geração em geração. É onde nos reunimos nas datas comemorativas e onde, ao olhar para um canto que passaria despercebido por qualquer outra pessoa, somos transportados a um momento reconfortante, guardado na parte da mente que não se deteriora com o tempo.
Desfazer-se de um lar, é como se desfazer de uma parte nossa. Mas, quando esse ambiente é marcado por traumas geracionais, ele ainda carrega valor sentimental nas memórias afetivas?
Em Valor Sentimental, o diretor Norueguês, Joachim Trier, parece responder essa questão ao retratar a moradia da família Borg como um espaço atravessado por dores antigas que são apresentadas antes mesmo da dinâmica entre os personagens. O lugar passa a ser um elemento vivo e central para a narrativa: suas paredes, rachaduras e até as batidas das portas carregam o peso das gerações que ali viveram. A casa sente e modifica junto com os habitantes, tornando-se, assim, um personagem por si só. E, sendo uma parte tão importante da narrativa, tudo retorna a este lugar, como uma fita de Möbius: desde o dia em que Gustav Borg (vivido por Stellan Skarsgård), um famoso cineasta e pai de Nora e Agnes vai embora, até o velório de Sissel, a mãe, onde ele aparece sem avisos.
Partindo do princípio de que casa é um elemento existindo para além da função de abrigar, a trama explora com profundidade o abandono parental, não somente na relação de Gustav com as filhas, mas buscando no seu próprio passado onde a “herança do abandono” se estabeleceu, forçando-o a repetir o ciclo.
Não é uma história maniqueísta, ou seja, não determina o que é certo ou errado — até porque seria muito simplista resumir a complexidade dos relacionamentos humanos desta forma. O longa apenas deixa claro que, pessoas machucadas, machucam outras pessoas, e talvez, seja essa a parte que gera maior negação. Geralmente, tendemos a enquadrar pais como heróis ou vilões, esquecendo que eles são, essencialmente, humanos.
Além do indiscutível talento das atrizes Renate Rainsve (Nora) e Inga Ibsdotter (Agnes) em transmitir as nuances das personagens, é interessante perceber o cuidado do Trier ao retratar as consequências da ausência paterna de duas perspectivas distintas. Apesar de crescerem na mesma dinâmica familiar, as irmãs têm visões de mundo muito individuais. Nora, a primogênita, fixa o pai no papel de algoz ao processar a negligência que contornou sua infância; nem quando é convidada para ser protagonista do novo projeto de Gustav, ela consegue silenciar a mágoa. Por outro lado, Agnes, a caçula, atua como uma intermediadora da dinâmica dos dois. Ela demonstra ser mais compreensiva com as escolhas do pai — até explodir e externalizar os seus sentimentos reprimidos. Esse contraste traz um toque ainda mais humano à obra, rompendo com a ideia de que o mesmo trauma impacta todos da mesma forma.
Ainda no âmbito das atuações, destaca-se Elle Fanning, que interpreta a atriz de cinema Rachel Camp, escolhida como uma segunda opção para o filme de Gustav. Rachel funciona como o tipo de coadjuvante que impulsiona a narrativa, servindo de ponte para o início da reconciliação familiar.
No desfecho, assim como a fita de Möbius, a obra retoma ao ponto de partida: a casa dos Borg. Dessa vez, como um cenário no filme de Gustav, com Nora finalmente no papel principal. É no momento em que os olhares do pai e da filha se cruzam que ambos entendem que o ciclo foi interrompido e a fita, enfim, rompida. No silêncio que só existe entre duas pessoas que se permitem ser vistas, eles se perdoam.
Valor Sentimental não é um filme fácil de digerir, ele aborda temas espinhosos que dificilmente queremos encarar. Embora sensível, traz questionamentos com potencial ruminante que incomodam. Todavia, também responde à pergunta que me moveu no começo do texto: sim, famílias marcadas por traumas geracionais ainda carregam valor sentimental nas suas memórias afetivas. No entanto, todas as partes precisam estar determinadas a quebrar o ciclo. O valor reside, principalmente, na aceitação de que famílias são imperfeitas.
Por: Anna Beatriz Ferraz



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