Train Dreams : O extraordinário e a lástima de permanecer vivo
- Revista Epifania
- 13 de mar.
- 4 min de leitura
Um filme de várias bifurcações, talvez um grande jogo de causa e consequência: aquilo que você fez volta para você e também te persegue. É nessa lógica quase inevitável que a trajetória de Robert Grainier se constrói, marcada por culpa, memória e perdas que parecem sempre ligadas a um mesmo ponto de origem.
O preço que Robert pagou parece grande demais, mas será que ele realmente merecia ter pago? Ele passou a vida inteira sentindo que estava pagando por todas as vidas que já tirou, vidas tiradas sem violência física, sem arma e sem intenção. Seu trabalho era derrubar árvores, vidas que morriam todos os dias por suas mãos, mas foi na construção de uma ponte que ele tirou uma vida de verdade.
Robert chegou ao mundo sozinho. Assim que se entendeu como gente, viu-se sem pais ou família, dentro de um trem que o levaria para o lugar onde ganharia e perderia tudo. Foi ali que conheceu seu grande amor, Gladys. Com ela construiu sua família e desenvolveu um medo profundo: o de ser ausente para sua filha, o de parecer que ela não teve pai, o medo de que ela não lembrasse dele como ele não lembrava dos próprios pais.
Mas o acontecimento que mudaria tudo viria no trabalho. Durante a construção de uma ponte, um colega asiático foi acusado de roubo e jogado ponte abaixo por quatro homens. Robert entrou em um dilema. O homem pediu ajuda, mas a maioria pediu ajuda para segurá-lo. Em um instante, Robert decidiu seguir a maioria. Em cinco segundos ele desistiu. Foi o último a tocá-lo antes da queda.
Ele passou anos se perguntando por que fizeram aquilo com aquele homem — e por que ele deixou aquilo acontecer.
Aquele colega assassinado o assombrou pelo resto da vida. Robert tinha certeza de que tudo de ruim que acontecia com ele tinha ligação com aquele momento. Para ele, a morte o perseguia. Sempre que via aquele asiático em seus sonhos, logo em seguida vinha um pesadelo.
Com o tempo, ele passa a compreender essa figura quase como um presságio. Robert perde seu amigo Arn e mais três colegas de trabalho. A sensação de que a morte o rodeava cresce cada vez mais.
Quando volta para casa em determinado momento, sente uma felicidade repentina, uma sensação de paz. Parecia que finalmente viveria o pleno da vida ao lado de Gladys e Kate — a vida com a qual sonhou durante tanto tempo. Mas quando retorna ao trabalho, a inquietação volta a tomar seu coração.
Nada de tão ruim acontece naquele período na floresta, até que, em um sonho dentro de um trem que o levava de volta para casa, o colega reaparece. Um susto o acorda. E então o fogo destrói tudo o que ele havia construído.
A primeira frase que sai de sua boca é: “Por que elas? Por que tirar isso de mim?”
Robert passou anos esperando a volta de sua família. Ele não vê mais o colega em seus sonhos, mas não há um segundo em que não se lembre, escute ou reviva os momentos ao lado de sua esposa e filha. O luto o consome.
Um amigo no qual ele comprava coisas quando viajava para a cidade o ajuda a seguir. O impulsiona. O traz de volta, pelo menos para uma pequena parcela da realidade. No meio disso, o destino lhe dá cachorros que acabam se tornando sua salvação. O comerciante também se torna um dos motivos de sua sobrevivência.
Quando parte dele começa a se recuperar, o amigo também se vai. Dessa vez Robert tenta usar essa perda como força para seguir firme. Por um momento parece que as coisas estão fluindo melhor. Mas o luto nunca vai embora. Ele apenas aprende a conviver com ele.
Só depois de décadas Robert entende que tudo estava conectado a tudo — inclusive ele. Ele estava ali. Ele estava vivo.
Assim como um ciclo, sua jornada começou sozinho, sem família e sem amigos. E termina da mesma forma: sozinho. Desta vez não em um trem, mas em sua cabana, construída no mesmo lugar da antiga casa onde viveu com sua família.
Na paz de um sonho, Grainier se vai, com a certeza de que a vida o conectou a tudo entre o céu e a terra.
O peso dessa história dilacera qualquer coração. Para além do roteiro e do enredo, as atuações de Joel Edgerton e Felicity Jones trazem ainda mais força para a obra. O peso com que Joel conduz seu personagem se torna a própria alma do filme, enquanto a leveza com que Felicity interpreta Gladys cria a combinação perfeita para exalar a química entre o casal. É um elenco competente que faz o público viver aquilo que se passa nas telas.
Tecnicamente, o filme também se sustenta com grande força. A direção de Clint Bentley consegue transparecer tanto a alegria quanto a dor de estar vivo. É uma narrativa sobre quem permanece depois de perder aquilo que era seu tudo.
A cinematografia, por sua vez, se destaca de forma impressionante. O trabalho de Adolpho Veloso é excepcional e realmente inspirador. Entre os últimos filmes que assisti, talvez este seja o de melhor fotografia. Há uma sensibilidade visual que reforça cada silêncio, cada perda e cada lembrança.
No final, o filme deixa uma pergunta inevitável: quando você perde os alicerces que sustentavam sua vida, o que ainda te mantém de pé? Como continuar vivendo?
Somos humanos e nascemos dependentes — diferentes dos cachorros, que logo após o desmame conseguem viver sozinhos. Talvez seja exatamente essa dependência emocional, essa necessidade de conexão, que torna a história de Robert Grainier tão dolorosa e, ao mesmo tempo, tão profundamente humana.
Por: Larissa Labelle



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