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Bugonia: como nascem as abelhas?

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 10 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Abelhas sempre despertaram uma espécie de fascínio nos seres humanos. Durante séculos, foram observadas como pequenos modelos de ordem, insetos que constroem cidades de cera, trabalham coletivamente e transformam flores em alimento. Talvez por isso tenham inspirado tantas explicações estranhas sobre sua origem e, por muito tempo, acreditou-se que elas podiam surgir da própria decomposição.


De origem grega, a palavra que batiza Bugonia remete justamente a essa crença de que abelhas poderiam nascer do cadáver de um boi. A imagem é quase grotesca, mas também profundamente lógica dentro do imaginário que a produziu: vida como subproduto da morte. Não é difícil perceber por que Yorgos Lanthimos se interessaria por essa premissa.


Livremente inspirado em Save the Green Planet!, de Jang Joon-hwan, o filme parte de um gesto simples em que um homem comum decide que precisa salvar o mundo. Teddy, vivido por Jesse Plemons, é operário e apicultor amador. Enquanto cria suas abelhas, sua própria vida se dissolve numa colmeia digital de vídeos, fóruns e “estudos” que alimentam sua crença fervorosa de que alienígenas infiltrados comandam a Terra rumo à destruição.


Sua suspeita então recai sobre Michelle, CEO de uma gigante farmacêutica interpretada por Emma Stone, que é sequestrada por Teddy e seu primo Dom, movidos pela convicção de que ela é uma alienígena de Andrômeda prestes a aniquilar a humanidade.


O ponto interessante é que o filme não trata essa ideia só como loucura, posto que o enredo mostra o caminho que leva Teddy até ali. O personagem vive numa cidade que depende economicamente da empresa que Michelle dirige, tem um trabalho precário e leva uma vida meio isolada. Nesse cenário, a teoria conspiratória acaba lhe oferecendo algo que a realidade não oferece muito e ele encontra nela uma explicação simples para um mundo desigual. Afinal, se tudo parece errado, então alguém precisa estar por trás disso.


A comparação com o filme coreano ajuda a perceber uma mudança importante. Em Save the Green Planet!, o suspeito era um homem, já em Bugonia se trata de uma mulher — e uma mulher que ocupa uma posição enorme de poder. Michelle representa um tipo de autoridade distante, quase intocável, e transformá-la em alienígena vira uma forma de explicar essa distância.


Ao mesmo tempo, o filme também não pinta Michelle como inocente. A empresa dela é predatória, a cidade depende economicamente dela e as decisões que ela toma têm impacto direto na vida das pessoas. Ou seja, a raiva de Teddy não surge do nada. O problema é o que ele faz com ela.


A construção temática do filme já é inquietante, e sua forma também contribui para esse desconforto. Yorgos Lanthimosabandona parte dos excessos visuais que marcaram trabalhos como The Lobster e Poor Things e aposta aqui em uma encenação mais contida. A câmera frequentemente se mantém à distância, observando os personagens quase como se acompanhasse um experimento.


Esse distanciamento formal atravessa o filme inteiro e reforça a sensação de isolamento que marca a trajetória de Teddy. Os espaços parecem grandes demais para quem os habita e a distância entre os personagens raramente diminui, como se Lanthimos estivesse menos interessado no drama imediato e mais na dinâmica entre essas figuras que tentam, cada uma à sua maneira, impor alguma lógica a um mundo que parece escapar de qualquer explicação.


As atuações ajudam a sustentar esse equilíbrio. Jesse Plemons constrói Teddy como um personagem inquietantemente comum, evitando exageros e apostando numa convicção quase tranquila, o que torna suas ações ainda mais perturbadoras.


Já Emma Stone interpreta Michelle com uma frieza calculada, mantendo a personagem numa zona ambígua entre vítima da paranoia de Teddy e representante de uma estrutura de poder que realmente molda a vida da cidade.


É nesse ponto que o filme se aproxima novamente da ideia de bugonia. Assim como na antiga crença de que abelhas poderiam nascer de um cadáver em decomposição, as convicções de Teddy parecem surgir de um ambiente social deteriorado — um lugar onde frustração, isolamento e desigualdade se acumulam até produzir narrativas capazes de explicar aquilo que a realidade, sozinha, não consegue responder.


O difícil é não pensar em como esse tipo de lógica aparece também fora da ficção. No início do ano, um comercial da marca Havaianas estrelado por Fernanda Torres sugeria começar o ano “com o pé esquerdo”. O gesto rapidamente ganhou outra interpretação nas redes e foi lido por alguns grupos da direita brasileira como uma provocação política.


Em resposta, começaram a circular vídeos de pessoas andando em frente a lojas da marca usando apenas uma sandália no pé direito, enquanto mantinham o esquerdo suspenso, e não faltaram também registros de consumidores queimando pares do chinelo.


O que casos assim revelam não é apenas a facilidade com que teorias conspiratórias se espalham, mas a forma como elas oferecem uma narrativa sedutora e explicativa, com culpados identificáveis e na qual nada acontece por acaso. Assim como a antiga crença de que abelhas surgiriam espontaneamente de um corpo em decomposição, as teorias conspiratórias também parecem brotar de ambientes saturados de alienação, medo e desconfiança.


Como filme, Bugonia funciona justamente por não tentar resolver completamente essa ambiguidade. Yorgos Lanthimos mantém a narrativa num equilíbrio incômodo entre sátira e estudo de personagem, evitando transformar Teddy apenas em objeto de ridículo ou Michelle numa simples vítima.


Em alguns momentos o filme parece deliberadamente frio, quase clínico, mas essa distância acaba reforçando o que está em jogo: mais do que provar se a conspiração é verdadeira ou não, interessa observar como ela se forma, como ganha consistência e como passa a organizar a percepção de quem acredita nela.


Talvez seja aí que a metáfora da bugonia se torne mais interessante. Durante séculos, a ideia de que abelhas poderiam nascer do cadáver de um boi oferecia uma explicação para um fenômeno que ninguém entendia completamente. Hoje sabemos que não é assim que as abelhas surgem, mas o impulso de preencher lacunas com histórias convincentes continua o mesmo.


Entre cadáveres que gerariam insetos e sandálias que esconderiam códigos secretos, a distância talvez não seja tão grande quanto gostaríamos de imaginar.


Escrito por: Luana Araújo

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