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“Ela não merece o carinho de vocês”: A reputação de um artista vale tanto quanto o seu talento?

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 25 de abr.
  • 6 min de leitura

Durante a sua passagem pelo Brasil, no Lollapalooza 2026, Chappell Roan foi duramente criticada nas redes sociais por sua postura com uma fã brasileira. No mesmo dia, a cantora foi ovacionada por uma plateia de mais de 85 mil pessoas por ter feito um dos maiores shows da edição do festival.


Chappell Roan já é popularmente conhecida pelo seu histórico de atrito com fãs e fotógrafos. A cantora norte-americana já revelou que se incomoda com o comportamento “assustador e invasivo” de alguns fãs. Ela não costuma tolerar perseguições, pedidos constantes de fotos e abordagens intrusivas que afetem a sua vida pessoal. Chappell também se impôs contra a tradição de fotógrafos em premiações, que costumam gritar os nomes das celebridades em busca de atenção para as fotos. Em 2024, no MTV Video Music Awards (VMA), a cantora confrontou um fotógrafo que “foi agressivo com ela”. Em entrevista ao Entertainment Tonight, Chappell se justificou e disse: “Eu acabei gritando de volta. Ele não podia ter gritado comigo daquela forma [...] Isso é bem avassalador e assustador”.

Chappell Roan briga com fotógrafo no VMA em 11 de setembro de 2024 (Foto: Noam Galai/ Getty Images for MTV)
Chappell Roan briga com fotógrafo no VMA em 11 de setembro de 2024 (Foto: Noam Galai/ Getty Images for MTV)

Em 2026, às vésperas da primeira apresentação de Chappell Roan no Brasil, as orientações para os seus fãs brasileiros eram claras: para evitar incomodá-la, eles não deveriam ir atrás da localização da cantora e foram instruídos a não segui-la em aeroportos e hotéis. 


Mas, mesmo com as orientações, um episódio de Chappell Roan com uma fã veio à tona e se tornou instantaneamente conhecido. O motivo? O caso foi exposto por Jorginho, futebolista do Flamengo.


Em seu Instagram, Jorge Luiz (Jorginho) compartilhou sua frustração depois de a cantora ter supostamente acionado um segurança para abordar a enteada de 11 anos do jogador por ter sido “desrespeitosa” e ter “assediado” Chappell. De acordo com ele, a menina teria apenas olhado para a cantora e sorrido, enquanto o segurança a abordou de maneira “extremamente agressiva”. Em uma nota de repúdio, Jorginho ainda adicionou: “Chappell Roan, sem os seus fãs, você não seria ninguém. E aos fãs: ela não merece o carinho de vocês”.

Nota de repúdio à Chappell Roan publicada pelo jogador Jorge Luiz do Flamengo em 21/03/2026 (Reprodução: Instagram)
Nota de repúdio à Chappell Roan publicada pelo jogador Jorge Luiz do Flamengo em 21/03/2026 (Reprodução: Instagram)

Já em seu pronunciamento, Chappell Roan contou que o segurança não era da equipe e que não pediu para ele fazer nada. Nas redes sociais, os fãs ficaram divididos: alguns saíram em defesa da artista, ao mesmo tempo em que outros relacionaram o último ocorrido com acontecimentos passados da carreira dela e não apoiaram a suposta conduta. Mesmo assim, a polêmica não parece ter tido um impacto fatal na passagem de Chappell pelo Brasil, já que seu show no Lollapalooza foi criticamente elogiado e sua performance foi ovacionada pelo público de mais de 85 mil pessoas. Entretanto, uma coisa é certa: o acontecido contribuiu para desgastar ainda mais a reputação e o prestígio da cantora.


Essa situação e o histórico de Chappell Roan ajudam a levantar um questionamento: será que a reputação de um artista vale tanto quanto o seu talento? Até onde uma celebridade consegue chegar artisticamente com uma reputação manchada e uma relação com os fãs popularmente abalada?


Segundo um estudo acadêmico de cararáter socioartístico feito por Thomas Teekens e L.E.A. Braden em 2019, a reputação de um artista é fundamental para o alcance do prestígio na indústria da arte. O estudo diz, ainda, que ser bem relacionado e popularmente reconhecido por um bom status valorizam culturalmente as produções de um artista e o ajudam a ter uma trajetória duradoura na indústria. 


Por outro lado, debates que priorizam o ato de “separar um artista de sua obra” também têm espaço nas discussões. Essa outra perspectiva defende a apreciação de um produto cultural sem o julgamento da humanidade do seu produtor. Ou seja, o comportamento de um artista não importaria para aqueles que estão consumindo sua arte e a apreciando a ponto de se tornarem fãs. Historicamente, alguns artistas já foram artisticamente desvalorizados devido ao seu comportamento e suas atitudes, ao passo que outros são adorados independentemente de suas ações externas à arte.


O cantor Drake é um exemplo de artista que perdeu grande parte do seu prestígio devido a condutas desaprovadas pelo público. A relação do rapper com o Brasil é marcada por polêmicas. Ao chegar em território brasileiro para uma apresentação no Rock in Rio em 2019, o cantor ignorou os fãs no aeroporto e se recusou a comer qualquer comida brasileira durante a sua estadia, por ter trazido um chef particular. Minutos antes do seu show, Drake demitiu o técnico de som e luz e surpreendeu a produção e o público ao proibir a transmissão ao vivo de sua performance, o que impossibilitou os fãs de assistirem à apresentação em casa. Em 2023, o rapper cancelou o seu show no Lollapalooza, justificando “circunstâncias inesperadas”.


Drake se apresentando no Palco Mundo do Rock in Rio em 2019 (Foto: Theo Skudra/ I Hate Flash)
Drake se apresentando no Palco Mundo do Rock in Rio em 2019 (Foto: Theo Skudra/ I Hate Flash)

Na época, os fãs de Drake deixaram a decepção evidente e não pareciam satisfeitos com o descaso do cantor com a comunidade brasileira que o admirava e acompanhava. A página de fãs “Drake Brasil”, no X (Antigo Twitter), que publica conteúdos sobre o cantor desde 2018, chegou a declarar estar muito frustrada com o “cancelamento ridículo do Lollapalooza 2023”. Desde então, o cantor não retornou ao Brasil e não parece estar sendo popularmente requisitado para isso.


Esse conjunto de situações, apesar de não indicar o declínio da carreira de Drake, com certeza manchou sua imagem, fazendo com que sua relação com os fãs brasileiros nunca mais fosse a mesma e, de certa forma, afetando diretamente a sua carreira.


Outro exemplo, em um contexto mais próximo da realidade de artistas brasileiros, é o da cantora Liniker. A cantora pop é conhecida como “grossa” e “antipática” por muitos. Relatos de Liniker negando fotos com fãs são frequentes, embora a cantora já tenha afirmado que não tira foto com fãs se não estiver confortável e pedido para que respeitem o seu espaço. 


Em 2026, ao dar uma entrevista, a entrevistadora pediu para que Liniker cantasse uma palhinha de uma de suas músicas e a cantora recusou com uma resposta curta e direta: “Você pode dar o play em qualquer plataforma de streaming”. A atitude foi vista como rude por muitos, mas alguns internautas saíram em defesa da cantora. No X, uma usuária compartilhou: “Imagina você é jogador de futebol e o repórter pede pra você dar embaixadinha na entrevista; Imagina você é médico e o repórter pede pra você dar diagnóstico na hora da entrevista…”.


Mesmo com as críticas acerca de seu comportamento, Liniker é uma das cantoras brasileiras mais premiadas da contemporaneidade e é constantemente exaltada pelo seu talento. Ela já acumula quatro estatuetas do Grammy Latino e tem um impacto cultural inegável como ícone da representatividade e diversidade no mundo da música.

Liniker na Cerimônia do Grammy Latino em 2025, segurando as 3 estatuetas que ganhou pelo álbum CAJU (Foto: Greg Doherty/Getty Images/ Latin Recording Academy)
Liniker na Cerimônia do Grammy Latino em 2025, segurando as 3 estatuetas que ganhou pelo álbum CAJU (Foto: Greg Doherty/Getty Images/ Latin Recording Academy)

De qualquer forma, o valor artístico de um artista se relaciona com a sua personalidade e vice-versa. É praticamente impossível desvincular um do outro, já que todo artista tem um pedaço de si em cada obra de sua autoria. Nem o talento nem a reputação de um artista conseguem andar sozinhos, mas existem casos em que a relação entre eles é mais complexa.


Casos mais extremos como o da escritora JK Rowling (criticada por declarações consideradas transfóbicas) e do rapper Kanye West (envolvido em declarações antissemitas e elogios ao nazismo) deixam claro que, às vezes, o melhor a se fazer é deixar de consumir totalmente qualquer produto que venha de um determinado “artista”, uma vez que sua obra transparece a sua personalidade considerada desumana e deplorável. Não vale a pena “separar o artista da obra” se um artista ou uma obra desrespeita os direitos humanos e deslegitimam um grupo social. Isso vai além de uma reputação negativa.


Ignorar a reputação e a personalidade de um artista ao consumir sua arte é uma escolha do consumidor e também não tem problema desconsiderar polêmicas despretensiosas de um artista ao apreciar sua obra. Além de que, um fã não tem como forçar um artista a controlar sua reputação em meio aos acontecimentos de sua carreira.


Na dúvida, um conselho para artistas emergentes é tentar manter uma boa reputação e fazer com que o carinho vindo dos fãs seja merecido. Porém, uma coisa é certa: se essa reputação não for boa e o artista for conhecido por ser mal-educado, ele vai, no mínimo, dar o que falar.





 
 
 

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