PATIXA NO CIRCO DIGITAL: Como a influenciadora digital Patixa Teló revela a dinâmica circense da internet brasileira
- Revista Epifania
- há 4 dias
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Seria possível ouvir uma voz ao longe: “Senhoras e senhores, respeitável público! Se preparem para acompanhar os casos mais impressionantes já vistos pelos olhos humanos”. Esta mesma voz, continuaria: “vocês irão rir, se impressionar e duvidar do que realmente é impossível”. Aquilo que poderia ser a chamada de um circo, faria uma pausa dramática: “O melhor de tudo isso? Sem sair da sua casa! Isso mesmo, tudo pela tela do seu celular”. De repente, a influenciadora digital Patixa Teló entra em cena e inicia o espetáculo: ser ela mesma, uma mulher trans portadora de síndrome de Down, de 41 anos e nascida em Manaus, capital do Amazonas, na Região Norte do Brasil.
Desde 2024, Patixa Teló virou figura onipresente em vídeos nas redes sociais. Sua fama veio após participação no reality show Rancho do Maia, do influenciador Carlinhos Maia, uma espécie de versão de outro reality show A Fazenda, da Rede Record, só que agora em formato de stories no Instagram. O Rancho do Maia é um dos projetos mais bem sucedidos de Carlinhos Maia, em que uma ativação de marca pode custar até R$ 600 mil, segundo reportagem do Correio Brasiliense. No programa, Patixa ficou famosa por tiradas engraçadas e por fazer um “par romântico” com um influenciador “padrão” João Pedro.

Os “cortes” com cenas de Patixa Teló viralizaram em redes sociais como X, o antigo Twitter, Instagram e Tiktok. Quase nunca sendo gravada por si mesma, as imagens circulam na internet através de uma equipe que registra seus momentos, além dos próprios fãs que fazem seus registros (e são cobrados através de um QR code de um pix que a manauara carrega). O modo de falar, de caminhar, as tiradas cômicas e as brigas tornaram Patixa um corpo-meme nas redes.
A fama da influenciadora ultrapassou a internet e chegou à Rede Globo, maior emissora de televisão do País. No dia 15 de setembro de 2025, ela participou do programa Estrela da Casa como convidada da plateia, se encontrou com o ator-galã Cauã Raymond e anunciou que iria lançar sua carreira musical com composições improvisadas pelos fãs. O sucesso de Patixa Teló, entretanto, parece vir repleto de dilemas: até que ponto essa inserção na mídia é feita por “humor” e não por um consumo de “admiração” fetichista por corpos dissidentes?

O CIRCO DOS HORRORES
Durante os séculos XIX e XX, uma forma de entretenimento sádico surgiu na lona de grandes circos através do mundo. A apresentação de pessoas que tinham alguma deficiência, ou algum aspecto da aparência que escapasse da normalidade virou o grande fenômeno para atrair o público, que se divertiam com os “monstros e aberrações” que o circo tinha a oferecer. Pessoas com nanismo e gigantismo, com deformidades no corpo, mulheres barbadas, gêmeos siameses e diversas outras dissidências eram expostas ao extremo e espetacularizadas através de slogans que estigmatizavam esses corpos.
Em meio de um crescimento da teoria de eugenia, essas pessoas eram colocadas em um posto de curiosidade pela ciência, mas também de chacota, o que se tornou uma das grandes fontes de renda desses circos. Segundo Jessica L. Williams, em seu livro “Media, Performative Identity and the New American Freak Show”, nos Estados Unidos, Phineas Barnum foi um dos primeiros a comandar esses espetáculos, o circo “Barnum & Bailey 's”, fundado em conjunto de seus sócios James Bailey e L. James Hutchinson, apresentava sua trupe formada por pessoas que, por causa das suas deformidades, eram abandonadas ao nascer e encontravam seu único sustento nessas apresentações.
O circo de Barnum se tornou um dos mais populares do mundo, e com um elenco que passou de mil pessoas. Destaca-se a presença de Annie Jones Elliot, chamada de Mulher Barbada, que atingiu um grande nível de fama viajando pela Europa e ao retornar para os EUA chegou a receber altos cachês. Outros diversos casos como as gêmeas siamesas Daisy e Violet, o “homem elefante” Joseph Merrick (que, por possuir a Síndrome de Proteus, desenvolvia tumores subcutâneos, que causavam a deformação do seu rosto), e o “garoto lagosta” Grady Franklin Stiles Jr. (doença genética, que alterou a forma das mãos dando o aspecto de uma garra de lagosta) também faziam parte do circo de Barnum.
Daisy, Violet, Joseph e Grady respectivamente (Foto: Reprodução Internet)
No Brasil, não se tem registro de circos especializados nas então chamadas “aberrações”, pelo menos não na maneira americana e europeia, mas houve exposição de povos indígenas como os Botocudos em 1882 e apresentações isoladas, como da Ella Grigsby (chamada de gigante virgem) em 1909 no Rio de Janeiro, como registrado no Jornal do Commercio e na Gazeta de Notícias, respectivamente. A partir da década de 1940, com o desenvolvimento da ciência e dos direitos humanos, essas apresentações começaram a ser proibidas pela exploração desses corpos. Porém, deixou um legado de estigmas à pessoas que ainda são afetadas por diversas doenças e condições genéticas na atualidade.
Os Circos dos Horrores acabaram, mas deixaram sua marca no imaginário coletivo, sendo imaginados e representados em diversas obras da cultura pop. Um dos exemplos mais famosos é a série “American Horror Story”, que na sua 4ª temporada ”Freak Show” (2013) trouxe sua trama baseada nesses picadeiros. A obra, produzida e escrita por Ryan Murphy, resgata as problemáticas dos espetáculos com referências a pessoas que realmente existiram e foram exploradas pelos circos, como as gêmeas siamesas Bette e Dot (Sarah Paulson) que sonham em ser artistas famosas, o “garoto lagosta” Jimmy (Evan Peters) e a mulher barbada Ethel (Kathy Bates) , mas também ressignifica as dissidências existentes nesses indivíduos como forma de resistência e luta pela sobrevivência em um mundo que não os aceitava plenamente.

DEBAIXO DA LONA-INTERNET
Apesar da inexistência de espetáculos dessa natureza nos circos da atualidade, os estigmas continuam e se atualizam no meio digital. Com o sucesso de “casas de influenciadores” durante a pandemia, os realities shows transmitidos pelas redes sociais se tornaram um grande fenômeno, um dos destaques é o “Rancho do Maia”, produzido pelo influencer Carlinhos Maia, de onde “saiu” Patixa Teló. O influenciador reúne subcelebridades e pessoas anônimas que têm vontade de “trabalhar” na internet e registra brincadeiras, provas e disputas envolvendo prêmios em dinheiro e festas. O modelo se assemelha ao de franquias como Big Brother Brasil e A Fazenda. Em 2023, Carlinhos Maia iniciou seu projeto gravando o reality Casa da Barra, em sua casa de praia, gravando seu dia a dia, além de realizar dinâmicas para movimentar e gerar “entretenimento” para os seus mais de 36 milhões de seguidores no instagram.
Os participantes se submetem a discussões, romances, traições e assuntos polêmicos na tentativa de crescer sua popularidade dentro do “Rancho do Maia”. Em meio a essas figuras, Carlinhos (que escolhe quem são os participantes) utiliza de corpos dissidentes como estratégia de “visibilidade” para essas pessoas “começarem” nas redes sociais. Aconteceu com Patixa Teló e também como influenciadoras como Pônei da Dandá, ex-frentista com nanismo que também viralizou nas redes. Entretanto, um ponto se delimita: quais os limites entre o destaque e a humilhação destas figuras nos ambientes digitais?
O aparente sucesso da participação de pessoas com nanismo, gerou a criação de uma casa à parte no Rancho do Maia, a chamada de “Casa dos Anões”, na edição de 2025. A participação de pessoas trans também por diversas vezes são questionadas na internet, já que Carlinhos frequentemente propaga discursos preconceituosos contra a comunidade LGBTQIAPN+.
A partir de todas essas polêmicas, os números do influenciador não param de crescer. As lives oficiais do perfil do Maia chegam a bater mais de 1 milhão de espectadores simultâneos, e o consumo dos stories do influenciador é massivo. Foi assim que Patixa Teló começou a atingir um maior público na internet, sendo exposta e colocada em situações vexatórias no Rancho do Carlinhos Maia, como o uso de figurinos estereotipados e exposição dos desejos sexuais da influencer.
COMO (DES)CONSTRUIR UMA WEB DIVA?
O caso da Patixa Teló expõe uma categoria central no entretenimento digital, as Web Divas. “Sem, aparentemente, apresentar nenhum atributo artístico e nenhum padrão estético comumente explorado na indústria do entretenimento, a Web Diva é tomada pela veiculação da sua imagem enquadrada como um meme (um corpo-meme) compartilhado e caracterizado pelo humor e ironia, principalmente.”, afirma Flávio Marcílio Maia, doutorando em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, que estuda essa categoria de “celebridade” midiática.
Essas figuras mobilizam amor/ódio, admiração/aversão e humor/humilhação e desafiam categorizações mais conservadoras. Agatha Nunes, famosa por seus vídeos de humor nas redes sociais; Valéria Almeida, que viralizou por se dizer parecida com a cantora Selena Gomez e Blogueirinha, personagem do ator Bruno Matos, que ironiza as blogueiras, estão conectadas pelo ponto de serem partes de minorias sociais que, ao serem expostas na internet, questionam os limites da fama. “Na internet, além dos admiradores e dos detratores (haters) parece haver uma terceira categoria/audiência que se mantém pelo gostar de odiar ou odiar gostar, um público que mesmo não gostando ainda consome pela ironia ou apenas como forma de curiosidade, de tentar entender o fenômeno como algo do tipo: como essa pessoa está famosa?”, declara o pesquisador.
Uma figura central nesta trajetória é a influenciadora Tulla Luana, que ficou conhecida por meio de vídeos reclamando do jogo Fazenda Feliz no Facebook, com seu jeito exagerado e expressivo foi ganhando seu público na internet e se auto-proclamou Web diva. É interessante ressaltar que Tulla também já participou do reality do Carlinhos Maia, onde também foi exposta após ter uma crise psicológica.

Patixa Teló não é a primeira “celebridade” a ser posta nesse local pelo público. A imagem da influencer começou a circular de forma descontrolada, passando por GIFs e figurinhas de conversas de mensagens, sendo gravada por todos os locais que ela passa e ultrapassando alguns limites de privacidade. Essa sequência levou a um desconforto de Patixa com essa exposição, que no dia 16 de janeiro de 2026 foi abordada por “fãs” na porta do banheiro de um shopping em Manaus e ficou irritada com a situação e começou pedir para tirarem fotos das suas partes íntimas.
A situação levou ao Ministério Público do Amazonas a manifestar e avaliar o caso, colocando a possibilidade da manauara de ser encaminhada para uma casa de acolhimento com suporte para pessoas com síndrome de down. Na ocasião, Carlinhos Maia veio a público, por meio do seu Instagram, para defender que Patixa estaria sendo cuidada: “Todo mundo está cuidando da Patixa, tem o Felipe, tem eu, tem todo mundo dando espaço à inclusão social, como a gente está fazendo". Carlinhos cita Felipe Tavares, influenciador que foi colocado como “namorado” de Patixa durante o reality.
O artigo 5°, inciso X, da Constituição Federal Brasileira afirma que: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Entretanto, no caso dessas influencers parece não existir uma separação entre o que é privado e o que é público. “Existem algumas leis sobre compartilhamento de imagem de terceiros na internet, mas essa relação de controle é complexa, muitas dessas pessoas que viralizam normalizam e hoje passam a gostar e entender que isso também pode ser bom”, atesta o pesquisador. Porém, em meio de todos esses tensionamentos, Patixa continua a ser gravada em um movimento quase de um animal sendo gravado em um zoológico e colocando o questionamento dos limites desta exposição.
Neste circo/internet que indivíduos como Patixa são encontrados, a fronteira entre o entretenimento e o horror continua não sendo delimitada. Afinal, os números da influencer continuam crescendo e sua imagem sendo compartilhada por milhares de pessoas, apesar de ser colocada nesse espaço de fetiche por sua dissidência: Patixa é engraçada por seu corpo não ser padrão, por ter problemas na fala, por agir de forma diferente, por não ser uma pessoa cis.
A voz parece voltar: “Senhoras e senhores, sentem-se que o show já começou! Fotos e vídeos são terminantemente incentivados, afinal nenhuma ação direcionada aos indivíduos nesse palco é criminalizada, muito pelo contrário: é motivo de risada!”. Pausa. “Recebam com muito carinho (ou não), compartilhem e lembrem-se: o importante é não questionar se sua diversão compromete a existência do outro”, diz a voz ao longe deste “Grande Irmão” da internet brasileira.
Texto por: Arthur Andrade
Orientador: Thiago Soares








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