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Frankenstein: Um clássico revisitado sob a ótica da solidão

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 1 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Poucos personagens atravessaram tanto tempo e tantas formas quanto os de Frankenstein. Desde que Mary Shelley publicou o romance, em 1818, a história do cientista que dá vida a um corpo feito de restos humanos virou peça, filme, quadrinho, fantasia de Halloween e personagem recorrente na cultura pop. O livro, que nasceu como um conto gótico sobre ciência, ambição e abandono, acabou se tornando um dos mitos modernos mais revisitados do cinema — do clássico estrelado por Boris Karloff às inúmeras releituras que vieram depois.


É nesse território já tão explorado que Guillermo del Toro decide fincar sua própria versão. Estrelado por Oscar Isaac como Victor Frankenstein e Jacob Elordi como a Criatura, o filme aposta na força dos atores e em uma encenação cuidadosa, com cenários sombrios, maquiagem detalhada e uma atmosfera gótica bem marcada.


Oscar Isaac constrói um Victor menos histriônico do que em muitas versões anteriores. Seu cientista é vaidoso e obcecado, mas não reduzido a um arquétipo simplista. Há uma imaturidade constante na maneira como ele persegue a própria ambição, como se estivesse sempre seduzido pela ideia de ultrapassar limites sem calcular o que fará depois.


No romance de Shelley, acompanhamos a deterioração de Victor de dentro para fora, em longos trechos de confissão e arrependimento. No filme de Del Toro, essa dimensão interior depende muito da interpretação de Isaac — e ela consegue sugerir essa culpa latente, ainda que não alcance a mesma profundidade introspectiva do livro.


Já Jacob Elordi assume a Criatura com presença física marcante, mas o que realmente define o personagem é o visual. O trabalho da maquiagem é impressionante: as cicatrizes, a textura da pele, a forma como o rosto parece permanentemente tensionado entre humanidade e ruína. A performance de Elordi funciona, mas é o desenho estético da Criatura que sustenta o impacto do personagem.


Num aspecto emocional, é interessante como essa Criatura é construída de forma mais sensível. Ele aprende a falar, lê, observa a humanidade à distância e compreende exatamente aquilo que lhe é negado. Existe consciência ali, e é essa consciência que torna sua solidão mais perturbadora do que qualquer traço costurado.


O embate entre criador e criação, claro, não é novidade; ele é a espinha dorsal da própria obra de Mary Shelley e de praticamente todas as releituras que vieram depois. No filme, Del Toro desloca o foco da simples transgressão científica para a dimensão emocional do abandono. Em vez de concentrar a obra apenas na vingança, insiste na responsabilidade emocional de Victor, deslocando o centro da tragédia para suas escolhas e omissões.


A mudança pode desagradar puristas da obra original, que enxergam no livro uma força filosófica maior. No entanto, é uma escolha coerente com a filmografia do diretor, interessado em figuras marginalizadas, algo que aqui aparece de forma bastante explícita.


Visualmente, o filme encontra sua maior consistência. A direção de arte é detalhista, os cenários são carregados de sombra e textura, e a fotografia aposta em uma paleta fria que reforça a sensação de isolamento. Há momentos que parecem composições pictóricas, quase estáticas, como se cada enquadramento quisesse sublinhar o peso daquela atmosfera gótica.


A cena da criação é conduzida como um ritual, mais simbólico do que científico, o que revela com clareza as marcas autorais de Guillermo del Toro. Essa identidade visual forte é, talvez, o aspecto mais coeso do longa.


Entre os personagens secundários, o filme também se permite mudanças que alteram o sentido da tragédia. Elizabeth, por exemplo, ganha um papel mais complexo e emocionalmente carregado do que costuma ter em versões anteriores. Em vez de ser simplesmente a noiva inocente que, no romance, é morta pela própria Criatura em um ato de vingança, no filme ela se aproxima da Criatura de maneiras que sugerem empatia profunda e até um tipo de ligação que beira o romântico — algo perceptível na forma como os dois compartilham silêncios e olhares, como se reconhecessem no outro uma solidão parecida.


Ao optar por fazer com que sua morte aconteça por um disparo acidental do próprio Victor, a adaptação desloca a violência que, na obra original, é uma resposta direta da Criatura, e a transforma em consequência da falha humana do cientista, reforçando a ideia de que o verdadeiro desastre nasce de suas decisões. Essa escolha evidencia a intenção do filme de responsabilizar Victor de forma mais direta.


O mesmo acontece no desfecho. Em vez da espiral de destruição que culmina na autodestruição da Criatura, a narrativa opta por uma trégua. Victor pede perdão antes de morrer, e a Criatura permanece viva, buscando algum tipo de paz. Troca-se o niilismo absoluto por uma possibilidade de continuidade.


Talvez essa seja a mudança mais importante do filme. Diferente do livro, onde a Criatura se suicida no gelo como forma de encerrar o próprio sofrimento, aqui há uma recusa desse destino. Ela não precisa morrer para pagar por uma existência que nunca escolheu. Se houve culpa, ela não nasceu dela.


Ao deixá-la viva, o filme desloca o peso da responsabilidade. A dor da Criatura não aparece como algo que precisa ser punido com a morte, mas como consequência do abandono. Não é um final feliz, mas uma escolha que evita transformar sua existência em condenação.


Pode não ter a mesma força devastadora do final literário, mas oferece uma leitura menos fatalista do mito.


A discussão sobre monstruosidade, então, ganha contornos mais éticos do que físicos. A aparência grotesca da Criatura é constantemente confrontada pela incapacidade de Victor de assumir as consequências de seus atos. O filme não elimina as ambiguidades — a Criatura não é completamente inocente —, mas insiste em perguntar onde começa, de fato, a deformidade: no corpo costurado ou na recusa em reconhecer responsabilidade?


Ainda assim, o resultado é irregular. O segundo ato se alonga mais do que deveria, alguns diálogos explicam sentimentos que já estavam claros na imagem, e o impacto emocional não atinge a mesma profundidade que o romance alcança. A estética impressiona, as escolhas são ousadas, mas nem sempre a intensidade dramática acompanha essa ambição.


O Frankenstein de Del Toro não busca fidelidade estrita, e isso é parte de sua força. É uma releitura assumidamente autoral, que imprime marcas claras do diretor e se distancia do texto original quando julga necessário. Nem todas as mudanças funcionam com a mesma potência, mas há interesse genuíno em reinterpretar o mito.


O resultado é uma adaptação irregular, porém ousada: visualmente marcante, conceitualmente interessante e, ainda que não alcance o mesmo impacto emocional do livro, uma obra que encontra sua singularidade ao reposicionar a tragédia menos como destino inevitável e mais como consequência das escolhas humanas.


Escrito por: Luana Araújo

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