O Agente Secreto: Um thriller político com alma recifense
- Revista Epifania
- 26 de fev.
- 4 min de leitura
Tudo começa e termina no Carnaval de Recife. Não como simples moldura estética, mas como princípio e desfecho simbólico de uma narrativa que pulsa ao ritmo da cidade. Em O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, o carnaval é linguagem, estrutura e comentário político. A festa popular, historicamente espaço de inversão de papéis, crítica social e ocupação das ruas, torna-se aqui território de tensão, memória e vigilância.
Ambientado em 1977, em plena Ditadura Militar no Brasil, o longa acompanha Marcelo, que também é Armando, dois nomes, duas camadas de uma mesma identidade fragmentada. Ele retorna de Brasília à sua terra natal trazendo consigo o peso de conflitos acumulados. Professor universitário e defensor ferrenho do direito à pesquisa e à autonomia acadêmica, Marcelo entra em rota de colisão com interesses econômicos ligados ao setor de minas e energia. O que começa como um desentendimento institucional transforma-se em perseguição sistemática. A violência que o cerca não encontra justificativa ideológica clara; ela serve, antes, a um projeto maior de intimidação, instaurar o medo como ferramenta de controle.
O roteiro constrói sua tensão ao permitir que o espectador descubra a dimensão da ameaça junto com o protagonista. Não há exposição didática: há silêncios, olhares, informações fragmentadas. Cada personagem apresenta uma versão distinta de Marcelo. Para uns, ele é o pesquisador idealista; para outros, um homem impulsivo; para alguns, uma ameaça. Aos poucos, compreendemos que existem vários “Marcelos” moldados pelo olhar alheio, mas que, no fundo, há apenas um Armando tentando sobreviver. Essa fragmentação dialoga diretamente com o contexto autoritário, em que identidades precisavam ser adaptadas, ocultadas ou reinventadas.
A ambientação é um dos maiores trunfos do filme. Todo palavreado, todo som, todo espaço e cada escolha estética são profundamente recifenses. A identificação gera aproximação: cada personagem carrega um pouco de Recife, um pouco do Nordeste, um pouco de nós. A maneira de falar, o humor específico, os gestos contidos, os “sorrisos amarelos” diante da tensão, tudo constrói uma autenticidade rara. A cor desempenha papel central: tons quentes, luz vibrante, enquadramentos que valorizam a arquitetura e as ruas reforçam uma identidade visual que dialoga com a memória coletiva da cidade.
Em contraste, o núcleo ambientado em São Paulo, situado na atualidade, é deliberadamente frio e burocrático. A fotografia perde intensidade; os ambientes são mais fechados e impessoais. Essa escolha não é casual: ela sugere um presente esvaziado de cor e de pertencimento, como se algo tivesse se perdido ao longo do tempo. O tédio desse núcleo funciona como comentário sobre a contemporaneidade, menos vibrante, mais anestesiada.
O filme também se debruça sobre o mistério de Ofir e das vidas que orbitam aquele espaço. O que levou cada personagem até ali? Essa pergunta ecoa ao longo da narrativa, revelando histórias marcadas por deslocamentos, perdas e escolhas difíceis que sabemos que existem, mas não sabemos os porquês e nem suas consequências. O prédio nos apresenta Dona Sebastiana, um alívio cômico mas poderoso, figura de uma mulher idosa, frágil, engraçada mas carregada de força, é no prédio dela e é por conta dela que Marcelo e todos os outros “refugiados” têm um lugar seguro para ficar, ela parece não ter motivo aparente para tais feitos, mas logos entendemos que ela possui três bons motivos para isso.
Outro elemento simbólico poderoso é a presença da lenda da Perna Cabeluda. Mais do que referência folclórica, ela funciona como instrumento narrativo para discutir a fabricação do medo. Em um contexto de jornais sensacionalistas e facilmente manipuláveis, polícia corrupta e versões oficiais convenientes, a lenda torna-se cortina de fumaça para encobrir crimes e justificar violências. A ditadura, aqui, não aparece em grandes atos repressivos, mas nas pequenas engrenagens: no tiro “acidental” disparado para autoproteção, na notícia distorcida, na suspeita constante.
Ainda que o tom predominante seja tenso, o roteiro insere momentos pontuais de humor, como na frase “eu sou cargo comissionado” dita pela colega de trabalho de Marcelo, que revela como um título de privilégio político pode dar um pouco de senso de mérito para alguém que trabalha tanto. Esses instantes de leveza não diluem o drama; ao contrário, eles nos introduzem a temáticas ainda mais sensíveis do roteiro. Temáticas essas que fazem alusões a casos reais e atuais, como a referência clara ao caso do menino Miguel retratado no filme de maneira muito similar a realidade e relembrando que esse tipo de crime era mais um daqueles que com ajuda da polícia corrupta eram arquivados, e ainda são.
Há também um comentário incisivo sobre desigualdades regionais e econômicas dito pelo personagem que pagou pela morte de Armando, Henrique Girhotti, o empresário rico com o qual nosso protagonista se desentendeu. A xenofobia enfrentada por personagens nordestinos, especialmente no ambiente acadêmico, evidencia o preconceito estrutural contra a produção intelectual fora dos grandes centros do Sudeste. Para quem é universitário ou pesquisador, a indignação é quase física: o direito à pesquisa, à patente, à autoria torna-se campo de disputa e inveja.
Tecnicamente, O Agente Secreto reafirma a força estética de Kleber Mendonça Filho. A fotografia dialoga com o período histórico sem recorrer ao artificialismo; a direção de arte de Thales Junqueira é sensacional e recria os anos 1970 com precisão nos figurinos, nas locações e nos objetos de cena; a trilha sonora de Pedro e Thomas intensifica a atmosfera de suspense e pertencimento. Cada elemento formal contribui para que o espectador sinta não apenas a história, mas o tempo e o espaço em que ela se inscreve.
Sobre Wagner Moura, é nítido e também já foi dito que o personagem foi feito para ele, é de impressionar a maneira como Marcelo e Armando são Wagner e vice-versa. Na realidade toda escolha e direção de elenco carregam nas mãos a beleza do filme, é intrínseco em todos os que assistem o longa que os artistas selecionados não poderiam ser outros, cada personagem virou propriedade particular daqueles que os viveram, e passaram para os espectadores o apreço que precisavam passar.
No fim, o filme é sobre memória, identidade e resistência. Sobre como o medo pode ser plantado e cultivado, mas também sobre como a cultura, especialmente o carnaval recifense, pode esconder ou driblar essas marcas históricas.
E é por isso que tudo começa e termina no Carnaval de Recife. Porque ali convivem festa e tensão, máscara e verdade, cor e sombra. Ali a história se repete, mas também se revela.
Escrito por: Larissa Labelle


Comentários