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A voz de Hind Rajab: o dilacerante testemunho do genocídio palestino.

  • Foto do escritor: Revista Epifania
    Revista Epifania
  • 7 de mar.
  • 3 min de leitura

“DIREITO A SER SOCORRIDO EM PRIMEIRO LUGAR, EM CASO DE CATÁSTROFES Princípio VIII – A criança deve, em todas as circunstâncias, figurar entre os primeiros a receber proteção e auxílio.”


As palavras presentes na Declaração Universal dos Direitos da Criança esmaecem em meio à fumaça da pólvora, disparada 355 vezes por um tanque israelense contra o carro da família Hamada, que fugia de sua vila em Gaza após uma ordem de evacuação das Forças de Defesa de Israel. O veículo foi sitiado e alvejado diversas vezes, assassinando seis membros da família, mas deixando Hind Rajab, uma menina de seis anos, cercada pelos cadáveres de seus parentes, implorando por resgate ao telefone com o Crescente Vermelho Palestino, que tenta por horas obter autorização do exército israelense para salvar a menina sem colocar em risco suas equipes. Os esforços são em vão: mesmo com a autorização, a ambulância de resgate é bombardeada no local e, após horas de terror, Hind também é assassinada dentro do carro. Essa é a história que A Voz de Hind Rajab, indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, denuncia ao mundo.


O filme, dirigido magistralmente por Kaouther Ben Hania, não falha em mergulhar o espectador na imensidão da crueldade colonizadora, mas faz isso de uma forma diferente de outras obras do gênero, tomando como único cenário o escritório do Crescente Vermelho Palestino. Não existe espetacularização do sofrimento da menina ao recriar para as telas o inferno que ela passou; pelo contrário, borrando a linha entre ficção e documentário, o único contato que temos com o que ela viveu são as gravações de áudio reais entre Hanood — como é chamada pela família — e os voluntários. A voz do outro lado da linha que escutamos durante todo o longa é a voz real da menina e dos socorristas mortos por Israel, uma escolha arriscada, mas que sem dúvida teve o efeito esperado: é impossível não se desesperar ao ouvir os gritos de desamparo e pedidos de socorro em meio às explosões e tiros ao redor.


Enquanto assistia, tive a sensação de que, além de denúncia, o filme era um tributo a esses mártires. Como já mencionado, não existem atores interpretando-os, mas a memória deles nos assombra até depois que os créditos rolam. Fotos reais de Hind Rajab são penduradas pelas paredes do escritório, registros dos socorristas e os seus nomes, Youssef Zeino e Ahmed Al-Madhoon, são apresentados entre as ligações. No cenário de um genocídio, em que essas informações são apagadas tão facilmente, eternizá-los para sempre em arte é resistência.


Mesmo que nós saibamos o final, as performances de tirar o fôlego dos atores Motaz Malhees (Omar), Saja Kilani (Rana), Amer Hlehel (Mahdi) e Clara Khoury (Nisreen), em conjunto com o roteiro de Ben Hania, constroem um suspense que se traduz em esperança nos espectadores — esperança de que o fim possa ser revertido. Mas logo, entre momentos de silêncio do outro lado da linha e interpretações magistrais, essa emoção parece tola e é esmagada pela realização de que não existe final feliz nesta história. Cenas de transição, como a da praia, funcionam quase como um funeral: o trabalho de edição e trilha sonora mergulha quem assiste no sentimento de luto pelo futuro que Hind Rajab poderia ter tido.


Outro ponto que chama atenção durante o filme é que, no final, enquanto se tenta realizar o resgate, a linha entre ficção e documentário se borra ainda mais. Na mesma cena temos vislumbres dos voluntários reais — por meio de gravações do dia — e os atores, reafirmando o papel do longa de manter viva a memória dos envolvidos e eternizá-la para o mundo.


A Voz de Hind Rajab, com sua premissa arriscada mas excelentemente cumprida, é um forte concorrente ao Oscar de Melhor Filme Internacional — e um grande baque para aqueles que ainda acreditam em ilusões de direitos internacionais e penalizações para crimes contra a humanidade. Hind Rajab tinha apenas seis anos quando foi assassinada a sangue frio pelo exército israelense; seu direito de ser resgatada prioritariamente foi negado e seus socorristas foram bombardeados covardemente. Que sua história, e a de milhares de outras crianças palestinas, não sejam esquecidas. Protestamos e rezamos para que um dia a Palestina seja livre, do rio até o mar.



Escrito por: Raphaela Leite

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