Uma Batalha Após a Outra: Um retrato visceral sobre violência e justiça
- Revista Epifania
- 6 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
“Uma Batalha Após a Outra” é daqueles filmes que enganam pela sinopse simples. Vendido como “a história de um pai que tenta salvar a filha de um sequestro”, ele de fato entrega essa premissa — mas a expande para um terreno político e simbólico muito mais amplo e inquietante.
Inspirada no livro de Thomas Pynchon, “Vineland” — lançado em 1990 —, a obra satiriza o governo dos Estados Unidos e seu autoritarismo mascarado de justiça, unindo ousadia, humor, ação e debate social. O filme se caracteriza pelo clima de tensão presente desde sua abertura, passando por toda a narrativa, que acompanha Leonardo Dicaprio no papel de Bob, um ex-revolucionário que embarca numa missão para salvar sua filha (Chase Infiniti), de seu antigo inimigo Coronel Lockjaw, um militar corrupto determinado a juntar-se a uma sociedade secreta racista que dita os rumos do país (Sean Penn).
Sob a direção de Paul Thomas Anderson, o longa transforma uma narrativa íntima em um retrato alegórico de tensões sociais contemporâneas. A cada cena, surgem paralelos difíceis de ignorar: ecos de políticas migratórias violentas, referências visuais que lembram grupos supremacistas como a Ku Klux Klan, figuras que evocam agentes de repressão estatal e personagens que transitam entre rebeldia e reacionarismo. O sequestro deixa de ser apenas um conflito individual e passa a simbolizar o sequestro de direitos, identidades e pertencimentos.
No campo das atuações, o elenco é um dos grandes trunfos. DiCaprio entrega uma performance contida, mas intensa, equilibrando vulnerabilidade e fúria. Sean Penn adiciona camadas de ambiguidade moral ao seu personagem, enquanto Chase Infiniti contribui com uma presença que reforça o peso emocional da trama. Já Teyana Taylor surpreende pela força dramática e pela segurança em cena. Quando esses atores contracenam, o filme atinge seus momentos mais poderosos, sustentados por embates verbais e olhares carregados de significado.
“Uma Batalha Após a Outra” mantém uma estrutura simples que apresenta o drama e a comédia em sua admirável coexistência, ajudando a trama a prosseguir com a energia inquietante e fazer com que as duas horas e quarenta minutos de duração não sejam cansativos.
Anderson consegue, através da direção e do roteiro, construir uma ficção distópica que tira o fôlego ao discutir sobre a violência institucional e criminalização de migrantes que Bob e Perfídia lutavam para combater, e aproxima o telespectador da sociedade real, composta por uma trajetória de hostilidade e racismo, gerando sistemas discriminatórios que vão do KKK ao ICE (Immigration and Customs Enforcement), que por meio de seus comunicados revela o aumento de mortes de imigrantes sob o governo de Donald Trump.
Combinando o heroísmo não extraordinário, mas errante e humano do protagonista, mostrado pelas inseguranças e deslizes ao encontrar os desafios que o atinge ao longo da trama, e a personalidade calculista e perversa do vilão, atraindo e levando o público a deleitar-se com a presença do personagem por mais que suas cenas lhe causem mais repulsa do que admiração, o filme dá a luz a uma equilíbrio narrativo que chega a ser genial: uma teia cinematográfica onde todos os seus elementos se completam, da fotografia a trilha sonora de Jonny Greenwood, que acentua os momentos de aflição, drama e até mesmo humor.
Ainda assim, é importante reconhecer que o filme não é impecável. Em alguns trechos, o simbolismo se aproxima do didatismo, tornando as metáforas políticas mais explícitas do que talvez fosse necessário. Para alguns espectadores, essa abordagem pode soar excessiva ou até mesmo panfletária. No entanto, essa escolha também é coerente com a proposta da obra: provocar, incomodar e gerar reflexão.
“Uma Batalha Após a Outra” talvez não seja um filme “espetacular” no sentido mais grandioso da palavra, mas é, sem dúvida, um trabalho muito bem dirigido, consistente e corajoso. A aclamação que vem recebendo é justa, especialmente por conseguir unir drama pessoal e crítica social de maneira orgânica. É um filme que permanece na mente do espectador não apenas pela história que conta, mas pelas perguntas que deixa no ar.
Escrito por: Isaura Maria e Larissa LaBelle



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