Acervos e updates: O impacto sociopolítico do portal Taylor Swift Brasil
- Revista Epifania
- 11 de fev.
- 11 min de leitura
Com o crescimento da descentralização do jornalismo, portais pop são criados e ganham cada vez mais força com o público no cenário sociopolítico brasileiro
Nos anos 50, o pop surgiu como um gênero musical, ganhando força com artistas como Elvis Presley. Segundo o jornalista americano Kelefa Sanneh, isso aconteceu derivado de gêneros musicais, como blues e jazz, além do movimento contra o rock, que era o gênero mais popular até então. Em seu livro “A Trilha do Pop”, Sanneh ainda fala sobre como o pop virou mais que uma música.
Além de começar a dominar os charts, pop começou a dominar as ruas, se tornando um estilo – de roupas, de personalidade e também de vida. Artistas como Madonna e Britney Spears ganharam o público nos anos 90 e na década de 2000. A primeira citada, ainda considerada a “rainha do pop” por muitos, trouxe um novo jeito de fazer música, especialmente para as mulheres.
Madonna sempre foi muito política, sem medo de mostrar sua sensualidade em letras de canções como “Like a virgin”, buscando igualdade de tratamento entre homens e mulheres. Esse fator se estendia a performances, como fica claro em apresentações como a do Video Music Awards (VMA) 2003, onde Madonna beijou Britney Spears e Christina Aguilera.

Esse ato da rainha do pop foi um escândalo, sendo o principal assunto nas revistas e jornais da época. Revistas como a Rolling Stones e a People Magazine dominavam o mercado, informando sobre tudo o que os artistas faziam, diziam ou deixavam de fazer e dizer. Até mesmo nas rádios, se você fosse fã de artistas, você tinha que procurar em mídias mais gerais, como era o caso dessas.
Não existia um veículo específico para artistas específicos, o público se informava sobre diversos cantores por consequência, enquanto buscava saber sobre seu ídolo ou sobre o artista do qual era fã. Esse esquema foi mudando com processos como a descentralização do jornalismo.
A descentralização do jornalismo aconteceu em um processo e é algo que continua acontecendo até hoje, Felipe de Almeida fala sobre isso em “Jornalismo Colaborativo na internet: Descentralização da informação e credibilidade jornalística”, citando que quando as redes sociais nascem, todos ganham o direito de publicar e falar o que bem entendem.
“Com o aumento na quantidade de pessoas que fazem uso da internet, notou-se também um crescimento na produção de conteúdo na rede. O uso de blogs e redes sociais tem demonstrado que muitas pessoas, antes, apenas receptores de informação transmitida pelos veículos tradicionais já se comportam de uma maneira mais ativa quanto a se afirmarem como emissores de conteúdo, na web”, afirma Felipe
Além de consequências que são frequentemente citadas – como o aumento de fake news e o aumento de desinformação –, existe a possibilidade de veículos de informações serem criados mais facilmente, sem precisar de uma grande equipe ou de uma estrutura física. Afinal, agora todos têm instrumentos para escrever, pesquisar e distribuir informações na palma da mão.
Dessa forma, nessa onda de criação de veículos alternativos e independentes – muito ligados à política, mas que não se restringem a isso –, surgem os chamados portais pop. Conhecido por muitos ainda como “fã-clubes”, eles saíram dessa bolha, construindo uma rede de portais de informação feito por aquelas pessoas que são o segmento mais ativo do público, segundo Henry Jenkins (2008).
Assim como existe o G1, a Revista Piauí e o Tracklist – que informam sobre assuntos gerais –, hoje é possível encontrar perfis com nome de “Taylor Swift Brasil” ou “Acervo Dua Lipa”, que são contas que somam milhões de seguidores, assumindo o papel de informar sobre uma personalidade/artista/celebridade específica – evidenciando a descentralização do jornalismo.
Apesar de informar seus seguidores sobre os artistas que o público gosta, os portais pop não se restringem a isso. Muitas vezes, eles apoiam causas sociais e se posicionam politicamente, como é o caso do portal Taylor Swift Brasil, que fez parte de campanhas em conjunto com a deputada Erika Hilton (PSOL): “Para nós, o posicionamento é importante porque reflete nossos valores enquanto equipe. Acreditamos na responsabilidade social de qualquer plataforma de comunicação, especialmente uma que alcança fãs do país inteiro.”
De fã-clubes a portais pop
No começo da era digital, era muito comum ver fã-clubes. Pessoas com um gosto em comum se juntavam e criavam uma conta on-line com o objetivo de expressar seu amor e admiração por uma pessoa ou produção – como filmes, séries e livros. Nesses perfis, eram postadas fotos, vídeos e declarações das pessoas que os administravam.
O portal pop tem uma montagem parecida, exceto que, ao invés de apenas declarar seu amor, as pessoas por trás dessas contas têm o objetivo de informar. Além do trabalho do artista, entrevistas e notícias sobre ele são divulgadas, e ações em conjunto para promover o trabalho desse artista – como as listening parties – são promovidas. Se a conta é dedicada a uma pessoa estrangeira, traduções também são feitas – sejam das próprias entrevistas e notícias ou de músicas, se for o caso do artista ser um cantor.
Esse trabalho é feito de forma voluntária e por um grupo de pessoas que têm esse interesse em comum, como é o caso do Taylor Swift Brasil (TSBR). Taylor Swift é uma cantora estadunidense, sendo uma das maiores da atualidade. Além de ter grande notoriedade nos charts dos Estados Unidos, ela é conhecida mundialmente, chegando a fazer seis shows esgotados no Brasil em 2023.
Segundo a equipe, são 13 pessoas que cuidam de diversos trabalhos para fazer os perfis do TSBR funcionarem, sendo elas divididas em Instagram, Twitter, Telegram, site, galeria, WhatsApp, tradução e design. Apenas no Instagram e no Twitter, o TSBR tem mais de 900 mil seguidores, sendo o maior portal dedicado a Taylor Swift no Brasil.
Segundo dados fornecidos pelo Meta Business, foram 187.365.291 milhões de visualizações em postagens do perfil do portal entre os dias 9 de setembro e 7 de dezembro, apenas no Instagram. Apesar do nome com “Brasil” no final, o alcance do TSBR vai ainda além, com apenas 17,1% de seu público vindo do país sulamericano, sendo o primeiro desse ranking. Estados Unidos, Filipinas e Índia vêm em seguida.

Condizendo com o público da cantora, 80,9% do público do portal são mulheres e 33,9% tem de 25-34 anos, se aproximando mais dos millennials. Em uma pesquisa realizada pela Morning Consult – empresa americana de business intelligence – sobre os fãs da artista, 52% são mulheres, enquanto 45% são millennials e 11% são adultos Gen Z.
Essa semelhança de proporções dos perfis dos públicos da cantora e do portal acontece pelo fato do perfil reunir pessoas que querem se informar sobre uma mesma pessoa, fazendo com que muitos saiam dos portais mais gerais e dos veículos tradicionais, como a Rolling Stone e a People Magazine.
Como as divas pop afetam nisso?
Em “A Trilha do Pop”, Kelefa Sanneh explica que, antes do pop ser o gênero musical que dominava as paradas, o rock sentia muita cobrança de posicionamento político. As expectativas eram que os rockeiros seguissem a linha da banda Iron Maiden, por exemplo, que traz assuntos sociopolíticos em algumas de suas músicas, como em “2 minutes to midnight”. Na obra, a banda critica o uso de armas nucleares, além da comercialização de guerras e a manipulação midiática.
Por essa criação de cobrança de posicionamentos, existem muitas críticas a grandes nomes do gênero, como é o caso da banda Metallica, que não segue muito por essa linha – apesar de existirem leituras políticas de algumas de suas músicas. Nos dias atuais, o pop vem seguindo esse mesmo caminho. Especialmente com as redes sociais, o público cobra posicionamentos das celebridades. Um grande exemplo desse cenário é a cantora Taylor Swift.
Apesar de ter lançado seu primeiro álbum no dia 24 de outubro de 2006, a cantora americana só se posicionou sobre um assunto sociopolítico pela primeira vez no dia 23 de março de 2018 – quando ela postou seu apoio ao evento March For Our Lives, campanha contra a violência armada nos EUA, em seu Instagram. Segundo a Billboard, na matéria “Taylor Swift’s Politics: Timeline”, a dona de hits como “Shake It Off”, até então era considerada uma “rainha dos grupos brancos nacionalistas”.
Nos Estados Unidos, existe uma ideia diferente de política e dos ideais, quando comparado ao Brasil, além de uma grande polarização. Desde 2018, Donald Trump vem sendo o tópico principal dessas discussões. O atual presidente do país norte-americano é considerado um símbolo da direita e do conservadorismo. Na esquerda – no lado dos “democratas”, surgiram Joe Biden e Kamala Harris como os principais nomes, que disputaram o cargo da presidência contra Trump.

Em 2018, Taylor Swift falou diretamente sobre figuras políticas pela primeira vez. Em uma postagem no seu perfil do Instagram, a celebridade anunciou que não iria votar em Donald Trump. Desde então, ela reforça esse posicionamento – além de apoiar os oponentes do presidente nas eleições, como fez com Biden e Harris.
Sua primeira fala sobre Trump aconteceu no dia 7 de outubro de 2018: “Eu acredito na luta pelos direitos LGBTQ, e que qualquer discriminação baseada em orientação sexual ou gênero é ERRADO. Eu acredito que o racismo estrutural que nós vemos nestes país contra pessoas de cor é assustador, repugnante e dominante”, escreveu a cantora. Além disso, em outras ocasiões, a compositora já incentivou seus fãs a se registrarem para votar nas eleições presidenciais – tendo em vista que nos Estados Unidos o voto não é obrigatório.
Um estudo do Ash Center for Democratic Governance and Innovation, da Universidade de Harvard, mostrou que discursos de celebridades podem influenciar as eleições americanas. O relatório da pesquisa afirma que essa influência vem muito mais de um cunho educador e mobilizador, o que é comprovado pelo aumento de registros on-line para votar e de inscrições para mesários, que acontece após pronunciamentos de artistas.
“As celebridades estão posicionadas de forma única para capacitar os americanos comuns a exercer seus direitos cívicos. As celebridades são uma força inigualável na cultura americana, informando o que compramos, o que vestimos e sobre o que falamos. Com influência e alcance significativos, elas são poderosas defensoras de causas sociais e políticas”, afirma o relatório.
Apesar do impacto ser maior em cidadãos americanos – onde existe uma grande quantidade de fãs da Taylor Swift –, isso causa uma boa impressão nos fãs ao redor do mundo. A equipe do portal Taylor Swift Brasil diz que vê o posicionamento político da cantora como “necessário, responsável e coerente”, destacando temas que a administração do perfil considera “relevantes”.
“Nós vemos o posicionamento político da Taylor como necessário, responsável e coerente com sua trajetória. Ela utiliza sua plataforma, desde 2018, para defender direitos civis, igualdade e justiça social – temas que consideramos relevantes e que impactam diretamente seus fãs e a sociedade de modo geral”, declarou a equipe de forma conjunta
O TSBR ainda afirma que sofre uma influência da cantora, ressaltando os respingos desses posicionamentos no portal: “A Taylor sempre nos inspirou e mais recentemente orienta a forma como lidamos com pautas sociais dentro do portal. Como fãs e comunicadores, entendemos que acompanhar sua postura significa também reconhecer a importância dos debates que ultrapassam a música, mas que continuam importantes para a cultura em que vivemos.”
De ídolo para fã
Como exemplo desse impacto e dessa inspiração do portal Taylor Swift Brasil, a equipe de 13 pessoas vem constantemente se posicionando sobre sociopolítica e, até mesmo, fazendo parte de campanhas. Para fazer isso, eles afirmam que existe uma discussão sobre o assunto entre os integrantes, tentando escolher aquilo que faz sentido para o portal e para cada um individualmente.
“Sempre buscamos o consenso. Discutimos internamente, avaliamos contexto, impacto e relevância do tema, e só então definimos se e como iremos nos posicionar. Nosso objetivo é agir com responsabilidade, representando a comunidade Swiftie e honrando a ética do portal. Nada é publicado sem alinhamento do grupo”, contam.
No dia 25 de fevereiro de 2025, o TSBR fez algumas postagens no X (antigo Twitter) entrando em uma campanha chamada “FCs contra a escala 6x1”. O período era de grande discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil e vários fã-clubes/portais se juntaram em uma campanha on-line, apoiando a redução da escala. Com o lema “Todo mundo precisa de tempo para viver”, além de um grande apoio dos perfis, a movimentação foi em colaboração com a deputada Erika Hilton (PSol-SP) e o vereador Rick Azevedo (PSol-RJ).
A primeira postagem sobre o assunto aconteceu sem vinculação direta à Taylor Swift. As imagens usadas foram da própria divulgação, que acabou viralizando nas redes sociais e a legenda explica o contexto do post.
“Hoje é dia de retomada! A deputada @ErikakHilton e @rickazzevedo, do Movimento VAT, protocolarão o Projeto pelo FIM DA ESCALA 6X1! Nós do TSBR nos somamos à essa mobilização nacional, mais uma vez, pela qualidade de vida de cada uma e cada um que trabalha nessa escala desumana! Queremos Vida Além do Trabalho! Queremos vida digna, descanso e direitos para a população brasileira! FCs CONTRA A ESCALA 6X1”, declarou o portal.
Segundo dados do X, esse post teve 29.806 visualizações, 2.406 engajamentos, 1,54 mil curtidas, 391 republicações e 40 respostas. Dessas 40 respostas, duas são de cunho negativo – sendo um deles direcionado a redução da jornada de trabalho e um as pessoas consideradas “esquerdistas” –, enquanto duas foram excluídas.
A segunda postagem foi feita apenas cinco minutos após a primeira. Dessa vez, a legenda tinha menos texto e a mídia utilizou a imagem da cantora com uma foto da Taylor Swift em um show sendo usada de fundo. As métricas mostram 70.267 visualizações, 6.210 engajamentos, 4,53 mil curtidas, 758 republicações e 61 respostas.
Dessas 61 interações diretas com o post, duas foram de cunho negativo, sendo uma diretamente sobre a campanha e outra sobre os swifties – como os fãs da cantora são chamados. Além disso, duas respostas foram excluídas e duas foram consideradas como “possível spam” – sendo uma delas de cunho negativo – pela rede social.

Com a mobilização em conjunto com outros portais, o assunto “FCs CONTRA ESCALA 6X1” entrou em segundo como mais comentado do momento. Esse resultado fez com que a parceria entre os fã-clubes e os políticos continuasse, criando uma campanha consistente.
No dia 9 de outubro de 2025, o portal Taylor Swift Brasil fez outra postagem se posicionando contra a escala 6x1. A imagem utilizada foi, novamente, da divulgação, inserindo os créditos a Erika Hilton e Rick Azevedo. Além de reforçar a opinião dos fã-clubes e dos políticos, o post também tem um link, que direciona as pessoas a uma petição.
O post rendeu 55.361 visualizações, 7.172 engajamentos, 3,86 mil curtidas, 1,1 mil republicações, 100 respostas e 1.129 cliques no link. Das 100 respostas, 31 foram consideradas como “possível spam” pelo X. Além disso, duas respostas foram de cunho negativo, sendo uma direcionada a cantora e aos fãs, enquanto a outra foi direcionada ao funcionamento do site disponibilizado.



Imagens utilizadas nas postagens do portal Taylor Swift Brasil de campanha contra escala 6x1
Quando os dois tipos de postagens são comparadas, é possível ver uma diferença no rendimento dos pronunciamentos feitos sem vinculação direta à Taylor Swift e dos pronunciamentos feitos com uso da imagem da compositora. Apesar do primeiro tipo movimentar os fãs e as pessoas que gostam da norte-americana, o que acontece também pelo perfil carregar o nome dela, o segundo tipo traz mais identificação. Além disso, a foto da cantora no show também chama mais atenção dos internautas, resultando em um maior engajamento.
Além dos resultados vistos pelos números, a equipe do TSBR conta que sente esse apoio de outras formas: “A recepção costuma ser majoritariamente positiva. Muitos seguidores entendem que cultura pop e política não são esferas isoladas e valorizam que o portal se posicione de forma transparente. Claro que existem discordâncias, mas lidamos com elas de forma respeitosa quando surgem. No fim do dia, o portal é nosso e postamos o que faz mais sentido para nós.”
O impacto que o portal pop causa é através da imagem da celebridade a qual o portal é dedicado, mas os cliques nos links e a conscientização não aconteceriam se a equipe por trás dos perfis com milhares de seguidores não falassem sobre assuntos sociopolíticos: “Nós recebemos mensagens de pessoas que dizem ter aprendido, repensado ou buscado mais informação a partir do que compartilhamos, como as ações contra a escala 6x1 que participamos com a deputada Erika Hilton. O impacto que percebemos é principalmente o de informar, conscientizar e fortalecer pautas que, talvez, não seriam tão comentadas entre adolescentes e jovens adultos que ainda estão ingressando no mercado de trabalho.”
Texto enviado por: Laura Santos



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