O golfinho que tirou Zara Larsson do anonimato em meio aos hits
- Revista Epifania
- 16 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Como a cantora fez do limão uma limonada e transformou uma trend caótica do TikTok no ponto de virada crucial para mudar os rumos de sua carreira: a estética do Midnight Sun.
O ano era 2016: filtros saturados do Snapchat, coques bagunçados e fotos Tumblr estavam em seu auge, junto com as tatuagens de bigode e bebidas do Starbucks. Acompanhando essa onda, tocava em todas as rádios e fones de ouvido uma batida pop com vibe tropical sobre a vida luxuosa sem inibições — era “Lush Life”, de Zara Larsson, que alcançou o #1 na Suécia e o #7 na Billboard US. Uma música que marcou uma era e uma geração inteira.
Apesar de tantos charts e diversos hits como “Ain’t My Fault”, “Never Forget You” e “WOW”, a persona de Zara Larsson pouco era conhecida, o que é estranho considerando sua carreira cheia de sucessos e até sua apresentação na Eurocopa 2016. A sueca não passava da surpresa: “Nossa, é ela que canta essa música?”, algo que a própria artista reconhece em seu documentário recentemente lançado, Zara Larsson - Up Close.
Mas como esse cenário começou a mudar? A resposta é um tanto simples, mas muito inusitada: um golfinho.
Por que o público reconhecia as músicas, mas não Zara?
Antes de falarmos da virada de chave em seu novo álbum, é importante analisar as eras anteriores da sueca e entender por que, apesar dos grandes números alcançados, ela não era reconhecida pelo seu trabalho. Zara sempre produziu músicas genéricas, as clássicas “músicas de loja de departamento”, que conseguiam conquistar um grande público facilmente. Seu álbum So Good, lançado em 2017, foi uma mina de ouro e de charts, com singles sendo trabalhados desde 2015. O álbum quebrou o recorde de maior debut feminino no Spotify e o manteve até ser destronado em 2019 por thank u, next, de Ariana Grande, além de ter acumulado mais de 2 bilhões de streams em seu primeiro ano de lançamento graças aos singles previamente lançados, como “Lush Life” e “Never Forget You”.
Suas músicas genéricas agradavam o público, mas sua persona artística — tão genérica quanto — não agradava. Segundo o filósofo francês Lipovetsky: “Primeiramente, cada estrela é construída como uma ‘marca’, facilmente reconhecível por características invariantes, e ilustra um tipo imediatamente identificável, um arquétipo que faz sonhar tanto os homens quanto as mulheres."
Daí vêm as chamadas “eras”, pequenos universos que os artistas criam para distinguir seus álbuns e suas personas. Podemos observar essa estratégia de capital artístico em gigantes da indústria como Taylor Swift: cada álbum acompanha uma cor, maquiagem, estilo de roupa e cabelo, todo um visual que marca a nova era e a torna atrativa para o público, criando uma marca no inconsciente dos fãs e até daqueles que não acompanham assiduamente a artista. Algo que não vimos nos lançamentos anteriores de Zara Larsson. Na verdade, suas tours e performances pareciam uma grande bagunça estética: as sonoridades não casavam com os figurinos, sua maquiagem e cabelo não ornavam com o resto, nem os visuais. Havia ali uma desconexão entre música e persona artística. Mesmo sendo uma grande performer e vocalista, um talento nato, não havia conexão entre ela e seu trabalho — pelo menos para o público.
Mas, antes da virada recente, a falta de estética não foi o único obstáculo no caminho da sueca. É importante também ressaltar que Larsson sofreu boicotes da indústria por se posicionar politicamente como pró-Palestina no X e Instagram. A artista nunca teve medo de falar sobre política e usar sua influência para tentar construir um mundo melhor. Ela chegou até a recusar se apresentar-se no intervalo do Eurovision 2024; em entrevista para a Swedish Radio, declarou: “É um palco gigantesco e com mais de 100 milhões de pessoas a assistir, mas eu não me sentia à vontade de subir naquele palco e representar aqueles que competiram: Israel [...] Não me pareceu certo naquele momento. Não me arrependo de ter recusado e faria tudo de novo cem vezes.”

Por seu posicionamento, Zara perdeu contratos e foi cortada de premiações, mas nunca se arrependeu de falar sobre o que importa para ela, usando sua plataforma para trazer luz a assuntos que a mídia majoritária tenta deixar à sombra. Ainda assim, mesmo com os boicotes, o fator que realmente travava sua consolidação como artista era a desconexão entre sua imagem e sua música, e é exatamente essa ruptura que seu novo álbum começa a resolver.
Golfinhos, praia e Y2K: A estética do Midnight Sun e a consolidação de Zara como artista

No TikTok, em meados de agosto de 2024, uma trend começava a circular pelo mundo: imagens de golfinhos em uma praia vibrante e fantasiosa — algumas eram artes originais do artista Christian Lassen, intituladas Enjoy Sunshine, e outras eram geradas por inteligência artificial — acompanhadas de frases comicamente trágicas como “meu gato morreu”, “eu sei onde você mora”, entre outras milhares, criando um contraste com o clima alegre das cenas. A música acompanhava o meme era “Symphony”, de Zara Larsson, e, graças ao viral dos golfinhos, a faixa voltou às principais paradas.
Eram inúmeros vídeos que chegavam a quase um milhão de curtidas na plataforma, e, diante da repercussão, as criações rapidamente chegaram até Larsson. Zara entrou na onda do viral: repostou vídeos, comentou e até fez sua própria postagem no Instagram em agosto de 2024 com os animais, acompanhada da legenda “Que porra está acontecendo”. No mesmo mês, os visuais de Symphony passaram a incorporar os golfinhos e, no Rock in Rio 2024, durante sua apresentação, eles foram um dos grandes destaques.

A partir daí, ela e sua equipe começaram a introduzir um visual praiano e Y2K na sua persona artística e nas performances. Aos poucos, os figurinos deixaram de ser simplesmente um minishort com cropped e passaram a incluir saias coloridas, shorts com cintos de charms, croppeds estilo biquíni vibrantes e cheios de brilho. As maquiagens também evoluíram, tornando-se bronzeadas, maximalistas e luminosas. Zara começou a construir um universo próprio, marcante e atraente ao público, preparando terreno para o lançamento do seu quinto álbum de estúdio, Midnight Sun, enfim estabelecendo sua própria “era”.
“Colocando de lado a música (Symphony), aquele aesthetic, eu fiquei tipo: eu gosto disso.” – Zara no podcast Zach Sang Show.
O primeiro single do álbum foi a faixa-título “Midnight Sun”, lançada em 13 de junho de 2025 e recentemente indicada ao Grammy na categoria Best Dance Pop Recording, a primeira indicação da cantora. Toda a sonoridade e o visual do clipe fazem o espectador mergulhar em um verão eterno, trazendo aquela lembrança do clássico “Barbie Vida de Sereia”: um mundo encantado de praia, cores e, claro – golfinhos. O clipe viralizou nas redes, especialmente no Twitter, onde usuários transformaram um trecho em trend.
Mas foi como ato de abertura da “Miss Possessive Tour”, de Tate McRae, que a sueca cresceu ainda mais: seus vídeos de performance explodiram no Tik Tok. De um simples opening act, Zara conseguiu criar uma conexão real com novos fãs, despertando curiosidade e desejo por acompanhá-la. O álbum completo saiu em 26 de outubro de 2025 e, apesar de não ter alcançado grandes números, seu impacto na construção de imagem de Zara Larsson foi incontestável. Agora era fácil reconhecer a artista ao ver qualquer elemento praiano, brilhante e vibrante.
Depois de longos saltos da cantora em direção à sua afirmação artística, a Midnight Sun Tour pode ser, até então, o maior deles. Iniciada em 28 de outubro de 2025, todos os aspectos visuais que compõem a turnê são absolutamente mágicos: as maquiagens maximalistas cheias de strass e personalidade assinadas por Sophie Sinot, o styling por Caterina Ospina impecável reunindo brilho, cores intensas e peças únicas que remetem ao verão, além de um cabelo divino assinado por Ricco.

Como se tudo o que Larsson tocasse nessa nova fase virasse ouro, todo o styling — especialmente as maquiagens — começou a virar trend no TikTok e no Instagram, com centenas de pessoas reproduzindo seus looks por completo. Os clipes das performances atingiram milhares de curtidas e visualizações, e o challenge de “Lush Life”, em que a cantora chama um fã ao palco para customizar uma camiseta com tinta spray e dançar a coreografia, tornou-se a febre do momento, um dos pontos altos da noite até mesmo para quem acompanha pela internet. Vale ainda ressaltar que todas as ilustrações da nova era foram feitas por artistas reais, como Lisa Frank e Jason Brooks.
A partir de um meme, Zara Larsson deu início a um grande verão em sua carreira, firmando sua identidade visual como artista e revelando ao mundo o rosto por trás dos hits. O caso da cantora mostra o quanto esses elementos de conexão com o público, as chamadas “eras”, únicas e marcadas por personalidade, podem ser a chave para o sucesso além dos charts, construindo longevidade em uma indústria tão competitiva quanto a do pop.
E que esse verão seja interminável para Zara: afinal, talento ela já tinha, só faltava colocá-lo em uma embalagem bonita e irresistível para conquistar, de uma vez por todas, o grande público.
Escrito por: Raphaela Leite