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Desejo Proibido?: Avanços e desafios da representação do afeto LGBT na telenovela

Foto do escritor: Revista Epifania
Revista Epifania
30 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 1 de out.

Escrito por: Pedro Gomes
Escrito por: Pedro Gomes

Desejo, em uma novela, nunca é só desejo. É close, trilha, beijo, câmera e, na era da internet, fandom. Para personagens LGBTQIA+, no entanto, tudo sempre foi mais vigiado. A televisão brasileira aprendeu, a passos lentos, a incluir corpos queer em suas histórias, às vezes de forma acertada, às vezes não. Mas presença, por si só, nunca garantiu equiparação. Com avanços e retrocessos, personagens LGBT ainda raramente acessam o mesmo repertório de desejo, intimidade e naturalidade concedido aos casais heteronormativos.


O recente sucesso do casal “Loquinha”, de Três Graças, cai num aspecto curioso dessa questão. O impacto de Lorena e Juquinha não está apenas em serem duas mulheres vivendo um romance em uma novela da Globo, mas na escala do que lhes é permitido fazer: afeto, humor, intimidade e circulação via redes sociais.


“Loquinha” entrou num ciclo de retroalimentação. Quanto mais o público reagia positivamente, engajava e shippava o casal, mais as cenas do casal ganhavam espaço na narrativa; quanto mais espaço ganhavam, mais cada cena virava evento e mais oportunidades havia para demonstrações de afeto. Nesse processo, o desejo sáfico, tantas vezes tratado como zona de cautela na televisão, também passou a produzir engajamento e valor simbólico para a novela. A criação de uma novelinha vertical dedicada ao casal é um dos sinais mais visíveis dessa circulação. Hoje, esse espaço pode parecer menos excepcional do que já foi.


Lais e Cecília em 'Vale Tudo' de 1988 (Divulgação)
Lais e Cecília em 'Vale Tudo' de 1988 (Divulgação)

A história das novelas da Globo, no entanto, indica que nem sempre foi assim. Em Vale Tudo (1988), Laís e Cecília viviam juntas e administravam uma pousada em Búzios, mas a novela nunca dizia que elas eram um casal; eram apenas “amigas”. O desejo existia na entrelinha, não havia praticamente nada da linguagem permitida aos casais heterossexuais. Alguns anos depois, em A Próxima Vítima (1995), Sandro e Jefferson foram primeiro apresentados como bons filhos e rapazes responsáveis para que, então, o fato de serem gays e de se apaixonarem começasse a aparecer timidamente na trama. Ainda que limitadamente, foram aceitos pelo público.


Já em Torre de Babel (1998), Leila e Rafaela podiam ser apresentadas como lésbicas, mas o casal foi marcado por rejeição do público e acabou sendo incluído na explosão do shopping que foi utilizada para retirar da trama personagens que não tinham sido bem recebidos. O avanço não era linear. Em contraste, em Senhora do Destino (2004), Eleonora e Jenifer tiveram romance, descoberta e até conseguiram adotar um filho, mas, mesmo bem recebidas, ainda havia freios quanto à demonstração do desejo.


Quando finalmente o beijo entre Félix e Niko em Amor à Vida (2013) aconteceu, virou evento nacional, em parte porque aquilo que já era rotina para casais héteros ainda soava como grande marco para personagens LGBT. Nos anos seguintes, houve mais alguns beijos LGBT em novelas, mas sempre em casais deslocados do eixo protagonista e ainda sem a mesma naturalidade dos casais héteros. O grande ponto fora da curva dessa época foi Liberdade, Liberdade (2016), que, pelo horário tardio, pôde mostrar a sexualidade homoafetiva mais abertamente.


Niko e Felix em 'Amor à Vida' (Reprodução Instagram)
Niko e Felix em 'Amor à Vida' (Reprodução Instagram)

Nos últimos anos, a representação continua instável nas novelas principais. Vai na Fé (2023) abriu discussões sobre cortes, diretrizes e limites em cenas de afeto LGBT, enquanto Terra e Paixão (2023) avançou com Kelvin e Ramiro, que tiveram beijo, casamento e final feliz, depois de já terem sido bem aceitos.


Já o remake de Vale Tudo, em 2025, seguiu por outro rumo: Laís e Cecília podiam ser representadas como casal e celebrar uma união, mas o afeto físico continuou tímido e o casal não alcançou a mesma repercussão de outros núcleos. Casos assim sugerem que o avanço não ocorre de maneira uniforme: alguns romances parecem conquistar mais espaço para demonstrar afeto, enquanto outros permanecem cercados de maior cautela.


A dimensão comercial também entra na conversa. Quando um casal LGBT deixa de ser apenas um núcleo narrativo e passa a alimentar redes sociais, cortes, comentários, trends e produtos derivados, sua circulação ganha outra escala.


Com “Loquinha”, o desejo partia das personagens, mas também do público: era a torcida que shippava, comentava, recortava cenas e fazia o casal circular, transformando demonstrações de afeto em acontecimento. O romance, assim, deixava de existir apenas dentro da narrativa e passava a funcionar também como mecanismo de engajamento. Para uma emissora, essa circulação pode significar divulgação espontânea, valor de marca e retorno comercial. No caso de “Loquinha”, afeto e estratégia de divulgação acabaram se encontrando.


Mau Mau e Felipe em 'Quem Ama Cuida' (Reprodução Instagram)
Mau Mau e Felipe em 'Quem Ama Cuida' (Reprodução Instagram)

“Malipe”, em Quem Ama Cuida, ajuda a observar algo semelhante ainda em movimento. Com Maurício e Felipe, o público detectou química, criou o ship antes da novela, montou cenas e cobrou desdobramentos. “Loquinha” foi há alguns meses o que “Malipe” agora talvez se torne: um romance cuja torcida nas redes passa a fazer parte da própria experiência de acompanhar a novela.


Essa relação entre novela e público, porém, também precisa ser vista em um contexto social mais amplo. O público mudou desde os anos 1990: pesquisas do Datafolha indicam a saída de uma maioria contrária à união homoafetiva naquele período para uma aceitação majoritária da homossexualidade nas décadas seguintes. Em 2022, esse índice chegou a 79%; em 2026, recuou para 72%, sinal de que a mudança existe, mas não é necessariamente linear. A própria telenovela parece ter acompanhado esse deslocamento. Hoje, a presença de personagens LGBT tende a provocar menos interdição, mas o desejo físico continua sendo um ponto sensível, agora atravessado também pela circulação digital.


Uma pesquisa publicada em 2024 na revista Observatorio (OBS*) sobre “Clarena”, casal formado por Clara e Helena em Vai na Fé, ajuda a pensar essa camada atual. O estudo analisou a atuação dos fãs no X e observou como a torcida não apenas celebrava o casal, mas também apontava falhas, comparava o tratamento dado a casais LGBT e heterossexuais e denunciava procedimentos lidos como “censura” pelos fãs. Hoje, a cobrança não fica restrita ao sofá: vira hashtag, corte, thread, comparação, campanha e pressão pública.


Isso, porém, não elimina os desafios da própria representação. O público se transformou, mas a equiparação ainda não veio por completo, talvez também porque a mudança de opinião sobre pessoas LGBT ainda seja instável e desigual na própria sociedade. A telenovela parece lidar com esses romances com muito mais naturalidade do que antes, mas permanece a dúvida sobre até que ponto esse afeto pode ocupar a tela. No fim, desejar em cena também é uma forma de ocupar espaço, e esse espaço ainda parece distribuído com cuidado.


 
 
 

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