QUANDO O SEXO VIRA CASTIGO: O que o terror slasher diz sobre o conservadorismo norte-americano?
- Revista Epifania
- há 1 dia
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O cinema não se limita ao entretenimento nem representa um vazio cultural, mas opera como um arquiteto da opinião pública. Suas narrativas entrelaçam ficção e realidade e servem como mecanismos de manutenção social por meio da metáfora e da semiótica. Esse papel tornou-se ainda mais evidente nas décadas de 1970 e 1980, no período de choque entre a ascensão do neoconservadorismo e a herança libertária dos movimentos civis, protagonizados, em muitas vertentes, pela juventude.
Em 1º de janeiro de 1985, quando o mundo estava inserido em um contexto político polarizado entre Oriental e Ocidental, chamados coloquialmente de "comunista" e "capitalista”, ao declarar o ano como Ano Internacional da Juventude, o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Javier Pérez de Cuéllar, apresentou a campanha com o objetivo de reconciliar os jovens dos dois lados e encorajá-los a acreditar que a juventude podia mudar o mundo e tornar a política credível.
Diante dos muitos papéis que marcaram a história da humanidade como narrativas de transformação revolucionária, o cinema se consolidou como uma das maiores ferramentas de contestação ao proibido e ao banal. “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. A frase, atribuída ao líder marxista revolucionário Che Guevara, traduz a ideia de que o inconformismo, a rebeldia e a contestação da ordem estabelecida percorrem naturalmente as veias da juventude, fazendo desse idealismo ativista um impulso intrínseco e quase genético.
Foi justamente das telas que emergiram novas formas tanto de enfrentamento ao puritanismo norte-americano quanto de reprodução desses rígidos valores. Entre elas, o terror slasher ascendeu, transformando medo, violência e transgressão em instrumentos de influência.
A morte como sentença

Não por acaso, os filmes slasher aparentam ser instrumentos de condicionamento da sociedade americana conservadora do auge da Era Reagan para a juventude. Mais do que isso, eles agem como contos de fada sobre a importância do celibato, com a punição para atos de promiscuidade através de mortes terríveis nas mãos de homens ou monstros enormes e imparáveis, muitas vezes mascarados, tais quais carrascos medievais, vide Jason de Sexta-Feira 13, ou Michael Myers de Halloween.
A maneira de sobreviver a estes seres malignos? Muito simples, apenas não faça sexo.
Mas, por que essa obsessão dos ianques pelo puritanismo? A resposta se encontra em dois grandes “monstros” que assombram os Estados Unidos nos anos 1980: o fantasma comunista e a epidemia da AIDS. Enquanto a ideologia comunista agia, na percepção pública estadunidense, como um agente desmoralizador, disruptivo e imoral, a epidemia do vírus da AIDS representava um risco constante para os jovens que viviam o auge de sua vida sexual, e a novidade em torno da doença e de seus métodos de transmissão era cercada preconceitos e mitos.
Talvez por essas razões, os assasinos do gênero slasher assumam a forma de seres invencíveis, sem rosto e sem nenhum tipo de morais, tal qual a doença que aterrorizava a nação, e atacavam em lugares repletos de “pecados” e jovens, como assim imaginavam os conservadores os ambientes em que ideias marxistas poderiam se propagar.
A recompensa pela castidade: Final Girls

Os filmes deste gênero seguem uma estrutura similar entre eles: um flashback mostra uma morte misteriosa ou a origem do monstro antagonista da obra, um grupo de jovens vai até o local, desdenha dos adultos que os avisam do perigo, engaja-se em comportamentos ilícitos ou imorais e, em seguida, é perseguido e morto um a um, com exceção da (geralmente) protagonista “certinha”, que dá um jeito de sobreviver até o final do filme.
A grande lição de moral dos maiores filmes slasher é que as Final Girls — protagonistas mulheres que sobrevivem até o final da história derrotando o antagonista — são as únicas que não transaram, beberam ou fizeram qualquer tipo de ação que seria reprovada pelos valores da família nuclear clássica ou, mais especificamente, no contexto estadunidense da Guerra-Fria, pelo American Way of Life.
“Você não pode simplesmente deixá-los me matar!”. O grito de Sally Hardesty, em O Massacre da Serra Elétrica (1974), implora pela misericórdia que transita pela linha entre o pecado e a virtude estabelecida pelo ecossistema do slasher, no qual o assassino assume o papel de moralizador e poupa a vida da mocinha por, fundamentalmente, seu perfil arquétipo da pureza tradicional.
Enquanto os jovens se distraem pelo desejo ou pelo efeito de substâncias, a Final Girl garante que sua sobriedade lhe confira o dom da vigilância, sendo ela a única que "vê" o perigo se aproximar porque não cedeu às tentações.
Em Halloween (1978), enquanto Lynda é assassinada após fazer sexo com o namorado, Laurie Strode sobrevive por sua postura “reservada e responsável”. O padrão se repete com Alice Hardy, em Sexta-Feira 13 (1980), que derrota Pamela Voorhees por se manter focada no trabalho no acampamento Crystal Lake enquanto os demais monitores aproveitam a liberdade sem os adultos por perto.
Ainda que essa fábula moralista sugira que o corpo feminino só é digno de salvação se for "puro" e submisso, a protagonista também carrega inteligência e perspicácia. Para derrotar o assassino, a garota abandona a passividade feminina tradicional, transformando-se em um símbolo de emancipação e poder.
O destino final da moralidade rígida

Na década de 1990, o slasher deixou de ser novidade e a fórmula do gênero já era previsível o suficiente para causar tédio. Com a chegada de Pânico (Scream, 1996) aos cinemas, o diretor Wes Craven revolucionou o terror com a era do slasher pós-moderno, na qual a figura da Final Girl é atualizada através de Sidney Prescott, que tem relações sexuais com seu namorado.
Quando o personagem Randy Meeks dita abertamente a regra máxima de sobrevivência: "Se você fizer sexo, você morre", ele questiona diretamente o puritanismo e a moralidade rígida do passado.
Assim, ao permitir que uma sobrevivente perdesse a virgindade sem ser punida com a morte, o gênero deixou de ser um teste de castidade determinado por uma ideologia conservadora e passou a representar resiliência, inteligência e instinto de sobrevivência no mundo real.
Escrita por: Isaura Maria e Marco Souza



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